De Recife: Graça Carvalho, jornalista alabucana*
Como acontece há 31 anos, as ruas do Centro de Recife foram ocupadas, neste 7 Setembro, pelo Grito dos Excluídos. Um protesto pacífico ecoou na voz de gente simples, de trabalhadores, sindicalistas, ativistas e políticos, que se manifestaram em favor da soberania brasileira, contra a anistia para golpistas, por redução de jornada de trabalho, por taxação dos mais ricos, em defesa do meio ambiente, e, especialmente, em solidariedade às famílias de milhares de vítimas palestinas, na Faixa de Gaza.
À frente de uma cruz de quase três metros, Frei Aloísio Fragoso, franciscano, escritor, conhecido nas comunidades da capital pernambucana pela sua compreensão do cristianismo como instrumento de transformação humana, percorreu todo o percurso do Grito chamando a atenção dos participantes e do público para o sofrimento dos irmãos e irmãs da Faixa de Gaza.
“ Este dia, para nós brasileiros, representa um momento especial, para afirmação da nossa cidadania. E, em especial, no Grito dos Excluídos, iniciativa da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), estamos defendendo a vida dos inocentes, das crianças da Faixa de Gaza, que estão sendo massacradas. E todos nós somos, de alguma forma, responsáveis por isso. Defender a vida desses inocentes é nosso papel neste momento”, afirmou o franciscano, acompanhado de viúvas, com bonecos nos braços, simbolizando as vítimas de Gaza.
Os participantes do Grito chegaram cedo à Praça Treze de Maio, local da concentração. Muitos deles, idosos, pessoas com deficiência, crianças, adolescentes, jovens, adultos, não só ligados à Igreja Católica, mas a outros credos, de diferentes classes sócias, raças, e orientação sexual. Uma representação de um Brasil plural, que diz não à intolerância, à violência e à perseguição de autoridades e lideranças políticas comprometidas com a democracia, com os direitos humanos e a soberania de seu país.
“O Grito dos Excluídos, para nós, é um ato histórico, que demonstra a nossa luta, por um Brasil mais justo. E um Brasil mais justo é, com certeza, a luta das mulheres. Sem as mulheres nos espaços de poder, nos espaços onde elas têm que estar ocupando, seja no mercado de trabalho, na luta, na garantia de uma vida justa e digna, sem violência, a gente não tem democracia. Portanto, o Grito dos Excluídos é também das Excluídas. É o grito das mulheres”, ressaltou a deputada estadual Rosa Amorim (PT/PE), filha dos dirigentes do MST Rubneuza Leandro e Jaime Amorim, criada no assentamento Normandia, na zona rural do município.
Presente também à manifestação, o senador Humberto Costa enfatizou que o momento é de defesa da independência do Brasil, da sua soberania e democracia, contra aqueles que tentaram implantar no país golpe de Estado. “É importante que a gente dê uma demonstração de força, de que o povo brasileiro não quer anistia para golpistas”, afirmou Costa (PT/PE).
A redução da jornada de trabalho também foi outro tema que apareceu nos cartazes e faixas, durante todo o percurso do Grito dos Excluídos, que contou com a presença de militantes de diversos movimentos sociais, a exemplo da Tenda da Fé, do Movimento Sem Terra (MST), do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e do Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), da Articulação Igreja em Saída, do Movimento Cursilhos da Cristandade, da Turma do Flau, de militantes de diferentes partidos de esquerda, de centrais sindicais e Pastorais da Igreja Católica.
“Estamos aqui também para ter o direito de criar nossos filhos, de ter lazer com nossos filhos, dos jovens terem tempo de trabalho, mas de lazer, de estudo e de ócio. Enfim, para viver bem, porque a gente não pode viver só para trabalhar e contribuir, enquanto os super ricos não contribuem do mesmo jeito”, enfatizou o coordenador do MTC, Walmir Assis.
Da concentração, no Parque Treze de Maio, os participantes andaram, cantaram, discursaram e dançaram, – sob o sol que resolveu brilhar, em Recife, após uma semana chuvas intensas – até o desfecho nas imediações do Pátio do Carmo, ao som de batuque, frevo, cantos da Igreja e gritos de todas as idades e cores.
*jornalista pernambucana, radicada nas Alagoas