27 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Cotidiano

O problema no YouTube não é Momo, mas sim Elsa e Homem-Aranha

Em 2017 o Youtube deletou diversos vídeos inapropriados com adultos atuando como personagens da Disney, mas suas cópias ainda existem e estão ao alcance das crianças.

Neste mês, voltou á tona o perigo provocado pelo Momo, uma ‘figura assustadora’ que invade vídeos infantis no YouTube e leva crianças a se mutilarem ou mesmo cometerem suicídio. Tudo balela: o Momo não existe e é puramente um conteúdo viral criado por anárquicos e propagado por desavisados.

A “Momo” surgiu no início de julho do ano passado através de vídeos publicados por adolescentes no YouTube, que tentavam interagir com “alguém” chamado “Momo”. É difícil apontar quem foi que começou com toda essa história, que pode ter começado em um grupo privado no Facebook.

As histórias foram crescendo ao longo do tempo, e houve até quem sugerisse que a “Momo” fosse um projeto japonês visando o roubo de informações de terceiros. Uma daquelas besteiras que se propaga na internet. Momo então foi figura central em um “Desafio da Momo”, onde a figura assustadora invadia vídeos e fazia com que crianças se machucassem.

A imagem sinistra associada a “Momo” era somente uma escultura de 1 metro de altura, criada em 2016, que foi apresentada em uma galeria de arte em Tóquio, chamada “Vanilla Gallery“, no distrito de Ginza, em uma exposição sobre fantasmas e espectros. Nada mais.

É importante deixar claro que o “Desafio da Momo”, na prática, nunca existiu. Foi feito um grande alarde em 2018 sobre esse assunto, que virou alvo de diversas matérias, reportagens, vídeos de YouTubers dos mais diversos tipos, o que alimentava ainda mais esse boato.

O tom foi alarmista e esta paranoia cresceu mais do que precisava. E roubou a atenção de algo muito mais perigoso do que Momo: Elsa, de Frozen, e Homem-Aranha.

Elsagate

Muitos devem conhecer Momo, mas poucos ouviram falar de Elsagate. A controvérsia, que leva o nome da protagonista da animação Frozen, é por causa dos vídeos no YouTube e no YouTube Kids que são classificados como apropriados para crianças, mas que contêm temas impróprios.

Não raro, estes vídeos infantis apresentam conteúdo como violência, situações sexuais, fetiches, drogas, álcool, injeções, humor escatológico (com urina e fezes) e situações e atividades perigosas ou perturbadoras.

Os vídeos geralmente apresentam personagens populares da mídia orientada para a família, usados ​​sem permissão legal. Como Elsa e Homem-Aranha, personagens populares entre crianças e usado de forma engenhosa, e tortuosa, para conseguir mais cliques por parte dos criadores dos vídeos.

https://youtu.be/3Q80uFfTjp0?list=PLx44LBkqeX4jnyeVhsva2_KKD2IJqzMKL&t=214

Seus títulos, além do nome dos personagens famosos, usa palavras-chave como “educação”, “aprender cores”, “canções de ninar” e também incluem anúncios colocados automaticamente , tornando-os lucrativos para seus proprietários e para o YouTube. Apesar da natureza questionável e muitas vezes confusa desses vídeos, muitos atraem milhões de visualizações.

Isso acontecia desde 2014, mas conscientização pública sobre o fenômeno cresceu apenas em 2017, quando se tornou parte de uma controvérsia mais ampla sobre segurança infantil no YouTube.

Naquele ano, depois de relatos de vários meios de comunicação, o YouTube adotou diretrizes mais rigorosas em relação ao conteúdo infantil. No final de novembro, a empresa começou a excluir canais e vídeos em massa na categoria Elsagate , bem como grandes quantidades de outros vídeos inadequados ou comentários de usuários relacionados a crianças.

Mas eles ainda existem. E muitos foram vistos centenas de milhões de vezes.

https://www.youtube.com/watch?v=E09B8S0gDkc

Os vídeos são muito confusos para o conteúdo infantil: alguns vídeos envolvem Elsa dando à luz, e em alguns outros, o Homem-Aranha injeta Elsa com um líquido colorido. Eles beiram aos cenários de vídeos pornôs.

Na maioria dos vídeos, as opções de curtir e não gostar foram desativadas, tornando impossível saber quantos usuários estavam realmente interagindo com elas. Muitos vídeos apresentaram centenas de comentários em rabiscos alguns sendo escritos por canais semelhantes em uma aparente tentativa de atrair mais cliques.

Portanto, pior do que Momo, que não existe, existe o perigo real, que é deixar crianças, muitas vezes com menos de 6 anos, sozinhas com um tablet na mão assistindo sem nenhuma supervisão vídeos no Youtube. Mesmo no Youtube Kids, mesmo que o pai clique em vídeos seguros, infelizmente, conteúdos inapropriados podem atingir seus filhos.

Não é um boato como com Momo. É algo concreto, que apesar do conhecimento do Youtube, pouco pode ser contornado. As vezes, a melhor solução, é continuar ao lado das crianças e cuidar dela, pois não é 100% possível confiar na babá eletrônica. Mesmo que ela se pareça com a Elsa.