9 de março de 2021Informação, independência e credibilidade
Alagoas

Central de Transplantes alerta para redução de doações em Alagoas

Preconceito ainda é uma barreira para doação de órgãos em AL; fila de espera de pacientes que precisam de um transplante é de 437

Conversar sobre o que fazer após a morte de um ente querido não é algo fácil. É um tema que muitos querem evitar, mas quando o momento chega é preciso decidir sobre um assunto que pode salvar e melhorar qualidade de vida de outras pessoas: a doação de órgãos.

“A doação de órgãos é um ato de amor ao próximo que surge em um momento de dor diante da perda de um ente querido”, disse a coordenadora da Central de Transplantes de Alagoas, Daniela Ramos.

Foi esse sentimento que encheu o coração da família de uma paciente do sexo feminino, 51 anos, que após ter o diagnóstico de morte encefálica confirmado, informou à Central de Transplantes de Alagoas, órgão ligado à Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), sobre o desejo de doar os órgãos desse ente querido. Com a autorização da família, a equipe médica da Central fez a captação de dois rins, do fígado e das córneas.

De acordo com Daniela Ramos, essa foi a primeira captação de órgãos feita em 2021 pela equipe da Central. “Os rins e o fígado foram encaminhados para os estados de São Paulo e do Ceará, respectivamente, e as córneas ficaram aqui mesmo em Alagoas onde já foram transplantadas. Esse foi o primeiro doador de muitos que irão aparecer durante esse ano de 2021”, exaltou a coordenadora.

Queda nas doações e nos transplantes – Em 2020, a Central de Transplantes registrou uma queda de 94% nas doações de órgãos e uma redução em 58% no número de transplantes em relação ao ano de 2019.

Para a coordenadora da Central de Transplantes de Alagoas, o maior impacto nessa redução foi causado pela pandemia da Covid-19, ocasião em que o Ministério da Saúde (MS) proibiu a realização de procedimentos cirúrgicos como os transplantes.

“Quando o MS liberou a realização dos transplantes, as exigências se tornaram maiores durante a pandemia, para que fosse garantida a segurança dos pacientes que estão aguardando um órgão e das equipes de saúde que estão lidando diretamente com a situação”, explicou Daniela Ramos.

Além de todas as dificuldades enfrentadas por causa da pandemia, outra barreira encontrada pelas equipes da Central de Transplantes é o preconceito e o tabu que ainda persistem em meio à doação de órgãos.

“Nossas equipes são formadas por médicos, enfermeiros e psicólogos, e estão capacitadas para fazer o trabalho de sensibilização e acolhimento com a família do doador. Mesmo assim, ainda existe esse preconceito em função da falta de conhecimento da população sobre o processo da doação de órgão”, destaca a coordenadora.

“As pessoas ainda não compreendem o diagnóstico de morte encefálica e confundem com situações em que o paciente está em coma, e os órgãos serem retirados com o ente querido ainda vivo, mas essa possibilidade é zero pelo rígido protocolo que é seguido para a confirmação da morte encefálica. Questões religiosas também dificultam a doação dos órgãos, assim como o fato das pessoas, ainda em vida, não falarem para a família sobre o desejo de ser um doador de órgãos, e é somente os familiares que podem autorizar a doação”. Daniella Ramos.

Protocolo de morte encefálica

Para ser um possível doador de órgãos, é preciso que seja diagnosticada a morte encefálica desse paciente, que ficará mantido em ventilação mecânica e com drogas vaso ativa, para que os órgãos permaneçam viáveis para ser transplantado para outra pessoa.

O protocolo segue a resolução número 2.173/17 do Conselho Federal de Medicina, que consiste em três etapas com dois médicos fazendo exames clínicos para poder testar os reflexos do paciente. Após a confirmação da parte clínica, um terceiro médico irá fazer um exame complementar de imagem, para verificar se existe algum fluxo sanguíneo no cérebro ou atividade elétrica cerebral.  Com a confirmação nos três exames, a morte encefálica fica comprovada e a família é informada do diagnóstico.

“Após essa confirmação, as equipes da central de transplante informam a família que tem a opção de prosseguir com a doação de órgãos ou então pegar o corpo e dar seguimento ao funeral”, explicou a coordenadora.

Fila de espera

São 437 alagoanos que estão na fila de espera para receber um órgão. Na fila para receber um novo rim estão 143 pacientes, 292 pessoas estão esperando para receber córneas e duas pacientes esperam por um transplante de coração.