2 de março de 2024Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro critica silêncio de Lula, mas em Maceió ignorou vítimas da mineração em 2021

Até heliponto improvisado o ‘SOS Pinheiro’ fez, mas o então presidente preferiu inaugurar com o prefeito JHC uma obra já inaugurada, do governador Renan Filho

Aproveitando a tragédia provocada pela Braskem em Maceió, com a iminência do colapso de uma mina, o ex-presidente Jair Bolsonaro criticou o silêncio de Lula (PT), que o derrotou nas eleições presidenciais.

Em uma “mitada” patética, Bolsonaro acusou Lula de não saber “nem pra que lado fica” o Nordeste. O presidente estava no Oriente Médio, região original dos milhões em tesouros da União que Jair tentou desviar do país.

Não só Lula, quando retornar ao Brasil, deverá visitar Maceió ao lado da ministra do Meio-Ambiente, Marina Silva, o vice Geraldo Alckmin (PSB) já anunciou as medidas federais que sertão tomadas:

O curioso é que Bolsonaro, inelegível para além de 2026, questionou sobre “onde está aquele que supostamente deveria estar governando o País”. Não se sabe se Jair estava em um jet-ski quando redigiu essa mensagem, mas sabe-se de duas de suas passagens em Alagoas, evitando completamente o caso Braskem.

Em 2021, o então presidente (PL) fazia sua campanha eleitoral por todo Brasil. O ainda prefeito de Maceió, JHC (PL), pretendia fazer com que Jair incluísse em sua agenda uma visita ao bairro do Pinheiro, para que vissem de perto o tamanho da tragédia provocada pela Braskem.

O caso pode ter tomado repercussão nacional apenas nos últimos dias, mas alagoanos (especialmente os maceioenses e todos os que moram na cidade parcialmente destruída pela mineradora) já sabiam o que estava acontecendo.

Naquele ano de 2021, antes da inclusão do bairro do Farol e localidades como os Flexais, os bairros do Pinheiro, Bom Parto, Mutange e Bebedouro foram condenados e suas famílias eram expulsas de suas casas por causa do maior crime de mineração em zona urbana do mundo.

Milhares já haviam sido relocados, habitações já estavam abandonadas e moradores dos Flexais, que semana passada foram de suas casas com uso de força policial, ainda pleiteavam sem sucesso a inclusão deles na área de risco.

O laudo técnico do Serviço Geológico do Brasil, assinado no ano de 2019 (os primeiros tremores foram sentidos em 2018) já revelava a monstruosidade do problema. Sendo assim, ao final do governo Michel Temer e no início do governo Jair Bolsonaro, o caso já deveria ter sido público e notório.

Só que como Maceió não é uma cidade do Rio de Janeiro e São Paulo, o crime da Braskem não se conhecido nacionalmente. Por isso, o prefeito de Maceió pretendia fazer com que Bolsonaro visse “in loco” os danos causados a Maceió pela Braskem.

Bolsonaro não foi. Nem mesmo nunca falou nada sobre o tema.

Os moradores que integram o Movimento SOS Pinheiro, primeiro bairro a sofrer consequências da mineração, marcaram uma manifestação para chamar atenção do presidente Jair Bolsonaro durante seu sobrevoo pelo bairro para conhecer a tragédia do afundamento do solo.

O grupo improvisou uma heliponto dentro do bairro, que já estava desocupado, para o presidente fazer um pouso juntamente com  sua comitiva. Nas redes sociais, o movimento lembrou que já tentou mostrar para o presidente a situação no município de Piranhas e esta seria a segunda tentativa.

“Não tem ninguém apoiando candidato A ou B. Queremos o presidente no bairro para atrair mais atenção para o nosso problema. Vamos  bater panela! Vamos mostrar nossa dor”, Bolsonaro os ignorou novamente.

Moradores ignorados

Alguns meses antes, em novembro de 2020, integrantes do movimento SOS Pinheiro foram até o município de Piranhas, na esperança de encontrar com Jair Bolsonaro para falar sobre o acordo firmado com a Braskem e o processo de indenização.

Bolsonaro estaria em Alagoas para a entrega da obra de ampliação do Sistema de Abastecimento de Água em Piranhas, no Sertão alagoano. Ignorados, o grupo SOS Pinheiro solicitaria uma interferência no termo de acordo proposto aos moradores que tiveram suas casas afetadas com o afundamento do solo, além do reforço na celeridade no processo do pagamento das indenizações.

Novamente, Bolsonaro nunca falou sobre o tema. O máximo que conseguiram com Bolsonaro foi um aperto de mão. No entanto, conversaram com o então ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que recebeu uma explicação para o atual cenário, teria ficado perplexo com a informação e disse que ira repassar ao presidente.

Ou Bolsonaro ignorou ou Marinho não cumpriu o que disse.

Pura campanha

Em maio daquele ano, visitou Maceió para inaugurar ao lado do prefeito da capital Alagoana, JHC, o novo viaduto da PRF  da capital alagoana.

Curiosamente, a obra é do governo do Estado, então governado pelo hoje ministro Renan Filho, que está no governo Lula. O pai de Renan, o senador Renan Calheiros, era o relator da CPi da Covid. Renan é o mesmo que conseguiu aprovação da CPI da Braskem.

Uma semana antes, Bolsonaro acusava Renan Filho de corrupção e sugeria que ele deveria ser convocado para a CPI. Como resposta, o governador de Alagoas disse que o presidente deveria falar mais sobre investigar os filhos dele.

Tarcísio Freitas, que era ministro da Infraestrutura, acompanhou a comitiva do presidente na visita a Alagoas. Depois, seguiram para São José da Tapera, onde seria inaugurada mais uma etapa do Canal do Sertão – que Bolsonaro jurou ter terminado, mas ela ainda continua.

Ou seja: nas suas passagens em Alagoas, Bolsonaro fazia apenas campanha. É o que faz agora, mesmo inelegível.