Carlos Avelino e Eulina: eu sempre quis escrever essa história de amor

Morreu Carlos Avelino; ‘Seu Carlos’, ‘Carlinho’, o “Carrinho”, como lhe chamava a doce e amada Eulina, companheira de união, que partiu na frente, para arrumar a casa – provavelmente uma casinha branca – para os dois morarem, lá no ceu, onde o tempo não conta; onde os anos não trazem as mazelas que enfraquecem e matam o corpo físico.

‘Carrinho’ foi amor único de Dona Eulina. Viveram juntos durante 77 anos de casamento (acho que um recorde), que ele costumava ampliar com os anos de namoro e noivado pra chegar perto dos 80. Ele era assim, exagerado em tudo.  E só se separaram porque, por aqui, a vida cumpre um ciclo: A gente nasce, cresce, reproduz-se e morre (esse é o ciclo biológico comum), mas nesse meio campo a gente erra, acerta, aprende, escolhe, ama, envelhece, e a eles foi dado o bônus de continuar amando, até morrer.

Sempre pensei que no dia que Dona Eulina partisse, Carrinho iria dar um jeito de seguir junto. Mas ele superou bem esse momento de extrema dor da despedida, porque sabia que era um “até logo”; uma pequena pausa na convivência com a amada de quem nunca havia, antes, se separado. Dona Eulina partiu em março de 2019, ano em que completaria um século de vida. Carrinho segue hoje, com 100 anos, completados no dia 22 de junho.

Deixam o legado de uma das mais belas histórias de amor que eu já vi – que supera tudo, que se vê no olhar, nas ações, nas atenções -; amor que transborda em sentimentos e números de cinco gerações:  Carlos Avelino x Eulina; 12 filhos e filhas, 37 netos, 52 bisnetos e 8 ‘tataranetos’ (como chamamos os trinetos). Família presente, todos os filhos ao redor, até o fim, o que é uma bênção nos dias de hoje.

Mas, quem é mesmo esse tal de Carlos Avelino?

Carrinho é uma figura lendária – no duplo sentido: de notoriedade e das lendas que permeavam suas histórias fantásticas, que ele contava com a certeza de que tudo era crível, embora parecesse incrível. Gostava de ‘se gabar’ de suas aventuras de rapazola conquistador, estudante do Diocesano, filho único de José Avelino e Dona Angélica, recruta do Exército, ex-combatente (sem ter combatido). Não chegou a entrar na guerra. Aí é que tem muita história…

Econômico, até nas palavras, rezava a lenda das reuniões familiares, que certa vez, Carrinho, estava em Maceió, com o pai, quando foram pegos de surpresa com alguma grande manifestação. Era tempo de guerra. Não havia ponte sobre a Lagoa Mundaú, e ele precisava chegar ao sítio Campo Grande, onde morava, em Marechal Deodoro. Mandou um bilhete telegráfico para a mãe, pedindo ajuda em montaria. “Mamãe, Maceió guerra. Burro eu, cavalo papai”. Talvez Dona Angélica tenha demorado para entender, mas a montaria chegou.

Amante da música, da boemia, Carrinho era inseparável do seu violão. Tocava em serenatas, nos bailes de outrora, em casa com os filhos, ou saía pelas ruas da histórica cidade de Marechal Deodoro, sonorizando noites enluaradas, fazendo dupla com Zezinho Romeiro – um no violão outro no saxofone. E que dupla! Quando davam de querer se mostrar (se exibir mesmo, no bom sentido), Carrinho tirava a vantagem que o instrumento de sopro tinha sobre o de cordas, tocando com o violão nas costas. Era a sensação!

Não havia uma só vez que me encontrasse, pra não me pedir que cantasse “Casinha Branca” (como ele chamava a música ‘Você vai gostar’ – de Sérgio Reis). Fiquei devendo uma.

Saudades que ficam e embalam um coração cheio de carinho por essa figura, avô dos meus filhos e que pra mim tinha também um pouco de pai.

Saudades que, com toda certeza, enlutam, hoje, familiares, amigos e a cidade de Marechal Deodoro, seu berço, sua casa na vida e na morte.

Vai em paz, ‘Carrinho’. A tua Eulina te espera, numa casinha branca, do outro lado da vida. Chega lá com teu terno listrado, uma flor do lado e o chapéu na mão.

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