17 de janeiro de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Demorou três décadas, mas Collor pediu perdão pelo confisco da poupança quando presidente

As perdas dos poupadores com o Plano Collor até hoje são discutidas na Justiça

Senador Collor de Mello discursa sobre os desdobramentos da Operação Lava Jato (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

No Twitter, o senador por Alagoas e ex-presidente, Fernando Collor, escreveu um uma thread sobre um assunto “delicado e importante”: sua decisão econômica de congelar a poupança das contas de brasileiros, para tentar conter a hiperinflação.

Ele, claro, disse que vez na melhor das intenções. Mas reconheceu que fora um erro.

Confisco da Poupança

Foi no dia 16 de março de 1990, um dia depois da posse do presidente Fernando Collor de Mello, quando, no auditório do Ministério da Fazenda, em Brasília, ela e dezenas de repórteres participaram de uma coletiva com a equipe econômica do novo governo, o primeiro eleito pelo voto direto depois de quase 30 anos.

“Não temos mais alternativas. O Brasil não aceita mais derrotas. Agora, é vencer ou vencer. Que Deus nos ajude”. Fernando Collor de Mello, em rede nacional, então presidente da República.

O novo pacote econômico, batizado de Brasil Novo e popularizado como Plano Collor, incluía, entre outras medidas de estabilização:

  • a troca da moeda (de cruzado novo para cruzeiro, sem corte de zeros);
  • a criação de um imposto sobre operações financeiras;
  • o congelamento de preços e salários por 45 dias;
  • o aumento das tarifas de serviços públicos (gás, luz e telefone, entre outros);
  • a extinção de 24 empresas estatais;
  • demissão de 81 mil funcionários públicos.

Nenhuma das 27 medidas anunciadas naquele dia, porém, surpreendeu tanto quanto o bloqueio das cadernetas de poupança.

Cerca de 80% do dinheiro aplicado, não só em cadernetas de poupança e em contas correntes, mas, também, em aplicações financeiras, como o famoso “overnight”, ficou retido no Banco Central por 18 meses. Estima-se que o governo tenha confiscado o equivalente a cerca de US$ 100 bilhões, o equivalente a 30% do Produto Interno Bruto (PIB).

Caos

Do dia 19 de março em diante, correntistas e poupadores, pessoas físicas e jurídicas, só conseguiram sacar 50 mil cruzados novos, cerca de R$ 8,3 mil em valores atuais.

O restante seria devolvido, em 12 parcelas iguais, a partir de 16 de setembro de 1991, acrescidas de correção monetária e juros de 6% ao ano. Na semana da posse do presidente Collor, o ministro da Fazenda do governo Sarney, Maílson da Nóbrega, decretou feriado bancário de três dias: 14, 15 e 16 de março.

Boa parte da população preferiu gastar o que sobrou no supermercado ou guardá-lo em casa. Em muitas agências, faltou dinheiro para tanta retirada. Por essa razão, muitos gerentes chegaram a ser presos por não terem dinheiro suficiente em caixa para pagar os saques de seus clientes.

Pior: havia gente com muitos investimentos, vendido recentemente carros ou casas. Ou tinham todo o seu dinheiro nestas contas. Mas foram bloqueadas e impossibilitadas de serem usadas.

Sem dinheiro, os consumidores mudaram seus hábitos e as lojas ficaram completamente vazias. O que não foi confiscado pelo governo era usado para fazer supermercado, pagar contas e comprar remédios.

Para não fechar as portas, donos de bares e restaurantes passaram a aceitar cheques e a vender fiado. De Norte a Sul, negócios foram desfeitos, viagens canceladas, casamentos adiados. O prejuízo, dizem os especialistas, foi incalculável. E, na maioria dos casos, irreversível.

Muitos infartaram. Alguns mais desesperados cometeram suicídio. Por sorte, três décadas depois, Fernando Collor pediu desculpas. O controle da inflação só veio em 1994, com o Plano Real. As perdas dos poupadores com o Plano Collor até hoje são discutidas na Justiça.