13 de agosto de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

Governo Bolsonaro ainda não tem assessor de imprensa

Aliados sugerem nome do mercado para lidar com imprensa, mas filhos resistem a mudança

Sem uma estrutura de assessoria de imprensa e fazendo campanha pelas redes sociais, Jair Bolsonaro agora estuda profissionalizar a comunicação de seu governo, só que seus filhos estão resistentes à ideia.

Na primeira coletiva, mesa foi uma prancha de bodyboard

Já se passaram três semanas desde a vitória nas urnas, mas o próximo governo ainda não tem um responsável por divulgar a agenda e fazer esclarecimentos sobre suas ações.

O cabo de guerra é disputado entre os filhos e o resto: os filhos do presidente eleito resistem à profissionalização desse trabalho, hoje feito de maneira informal. De outro, políticos e militares avaliam que a ausência de um assessor de imprensa e de uma estratégia clara de comunicação traz prejuízos.

Um exemplo negativo foi no dia da primeira entrevista coletiva como presidente eleito: alguns veículos de comunicação foram barrados, ainda não se sabe quem decidiu selecionar os jornalistas que entraram e aliados acreditam que se houvesse um profissional responsável pela organização, essa crítica nem existiria.

Carlos Bolsonaro

O vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho mais próximo, é o que mais resiste à contratação de uma assessoria.

Ele é quem alimenta os perfis do pai nas redes e foi o responsável por idealizar a estratégia adotada nos últimos anos pelo presidente eleito: de intensificar a comunicação com apoiadores via internet.

Não ajuda também sua falta de zelo e pouco disfarce sobre sua homofobia:

Nesta semana, ele deverá formalizar na Câmara de Vereadores do Rio o quarto pedido de licença de seu mandato. Com isso, totalizará 120 dias afastado do cargo. Durante a campanha, o tom de Carlos nas redes do pai incomodou aliados. Enquanto Bolsonaro tentava adotar discurso mais conciliador, o vereador continuava a fazer postagens contra a imprensa.

Durante a campanha, de maneira aberta, dentre suas postagens polêmicas, como o uso do #elenão com a figura de um torturado usado como exemplo de um pai que chora no banheiro por seu filho ser gay, Carlos não teve problemas em chamar Haddad de defensor de incesto e pedofilia.

Mais importante: nosso presidente não pode e não deve ter esse tipo de comunicação:

Além do vereador, outros dois filhos políticos do presidente eleito, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o senador eleito Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), se opõem a nomes já sondados para comandar uma estrutura de comunicação.

Indicações

Pessoas próximas a Bolsonaro relataram que sugestões de nomes de jornalistas para assumir a comunicação foram desaprovadas pelos filhos sob a justificativa de os profissionais serem petistas ou comunistas.

Parte dos aliados sugere nomes com experiência para assumir a Secretaria de Comunicação. Entre os defensores de uma comunicação profissional está o vice-presidente eleito, Hamilton Mourão.

Outras pessoas tentam vencer a resistência de Bolsonaro apresentando nomes do mercado. Entre eles, foi sugerido Alexandre Garcia, da TV Globo, mas equipe do presidente eleito nega que tenha havido convite formal ao jornalista.

Os filhos defendem nomes com alinhamento ideológico ao pai e são poucos os jornalistas elogiados por eles. São exemplo nomes do site O Antagonista, como Felipe Moura Brasil, ou do colunista da revista Veja Augusto Nunes.

O principal canal de comunicação oficial do futuro governo tem sido a conta de Bolsonaro no Twitter. Foi criado ainda um perfil oficial na rede social chamado Muda de Verdade, cuja descrição é “perfil oficial do Portal de Transição”. Assessores do gabinete de transição não sabem informar quem é o responsável pelas postagens.

Até que se defina se haverá um profissional a cargo da comunicação, o trabalho vem sendo feito de forma improvisada. Há um assessor informal, Tercio Arnaud Tomaz, que trabalha no gabinete de Carlos Bolsonaro e confirma agendas do presidente eleito e divulga fotos e vídeos das ações do político. Além disso, há na coordenação da equipe de transição uma assessoria de imprensa.