
A suspeita de que uma reunião fechada do Supremo Tribunal Federal (STF) tenha sido gravada clandestinamente aprofundou uma das crises internas mais delicadas da Corte nos últimos anos. Nos bastidores, ministros passaram a considerar que o eventual registro de áudio não visava apenas ao vazamento das falas, mas integraria uma estratégia mais ampla para produzir material capaz de constranger ou pressionar integrantes do tribunal.
A tensão escalou após o site Poder360 divulgar trechos literais da reunião que discutiu a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Banco Master. A publicação trouxe frases extensas, com aspas diretas e reconstituição completa de raciocínios atribuídos a diversos magistrados, um nível de precisão considerado incompatível com simples reconstrução por memória. A avaliação predominante no STF passou a ser a de que o encontro pode ter sido gravado.
O episódio ocorreu em um ambiente já tensionado. Integrantes da Corte lembram que a desconfiança em relação a Toffoli se intensificou quando ele determinou que os dados dos aparelhos apreendidos na investigação envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, fossem remetidos ao Supremo. Na leitura de alguns ministros, a centralização do material no STF poderia permitir uma “pesca probatória” em busca de menções a autoridades. O nome de dois ministros, além de Toffoli, já teria surgido em mensagens obtidas pela Polícia Federal.
A suspeita mais sensível é a de que a gravação tenha sido feita na expectativa de que esses dois ministros fossem citados durante as discussões. Caso referências surgissem, o material poderia ser usado como instrumento de pressão. “Se alguém gravou colegas para guardar como munição política, isso é gravíssimo”, afirmou um integrante do tribunal sob reserva. A interpretação interna é que a seleção de trechos divulgados, considerados favoráveis a Toffoli, reforçou essa desconfiança.
Relatos indicam que nenhum assessor participou da reunião. Os auxiliares permaneceram em ambiente separado e só conseguiam ouvir vozes quando o tom era elevado, sem condições de reproduzir frases completas. Nem garçons tinham acesso livre à sala: servidores precisavam bater à porta e aguardar que um ministro abrisse para entrega de água ou café. Na avaliação de magistrados e assessores, seria extremamente difícil produzir a transcrição divulgada sem acesso direto a um registro de áudio feito dentro da reunião.
Parte dos ministros desligou os próprios celulares antes do início do encontro como medida preventiva, justamente para evitar risco de gravação indevida. Para integrantes do tribunal, se houve registro, ele teria ocorrido apesar dessa precaução, indicando que alguém manteve um dispositivo ativo sem comunicar os demais.
Toffoli negou ter feito qualquer registro da reunião ou repassado relatos a terceiros e levantou a hipótese de que o vazamento pudesse ter partido da área técnica, sugestão que gerou desconforto entre servidores. Independentemente de confirmação formal, ministros relatam que o episódio já produziu um efeito concreto: a quebra de confiança entre pares. Reuniões reservadas do STF tradicionalmente ocorrem sem registro oficial para permitir debate franco sobre temas sensíveis.
A percepção de que um encontro desse tipo possa ter sido gravado alterou o ambiente interno e aprofundou a crise política na Corte.














