28 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Bebiano desabafa: “Bolsonaro é uma pessoa louca e perigosa”

Ex-presidente do PSL diz que deve desculpas ao país por ter viabilizado candidatura de Bolsonaro

Prestes a oficialmente ser demitido, o ainda ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, já fala com o ressentimento de quem está fora do governo Bolsonaro. Apesar de antes dizer ter carinho pelo presidente, ele não culpa mais Carlos, ou “pimpolho”, por toda a crise.

“O Jair é o problema. Ele usa o Carlos como instrumento. É assustador. Tenho vergonha de ter acreditado nele. É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil.” Gustavo Bebianno, ex-presidente do PSL e ainda ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

As informações são do colunista Lauro Jardim, que Bebiano negou com veemência. Ele afirmou que o “momento é de esfriar a cabeça e buscar equilíbrio”, mas o estrago já foi feito.

Ao conquistar a empatia de Jair Bolsonaro, Bebianno virou automaticamente um alvo de Carlos. O ministro, por sua vez, enxerga no vereador uma pedra no sapato do presidente, duvidando até mesmo de sua capacidade intelectual. O ministro pode guardar cartas na manga com o potencial de expor Carlos, inclusive com consequências para o pai.

Pessoas próximas dizem que ele não terá receio em fazer isso. O alvo não é o presidente, mas sim seu filho.

Em outro dos desabafos, Bebianno desabafou sobre a grande mágoa de trabalhar na pré-campanha da eleição, ao lado do agora presidente Jair Blsonaro, do que ter ficado ao lado de seu pai, que estava morrendo.

“Meu pai disse que era para eu trabalhar pelo Brasil, fazer o bem. Eu deixei de estar com meu pai na morte dele para estar com o Jair”. Gustavo Bebianno.

Balançou até cair

Aliados do presidente lembravam que a demissão, em crise exposta nas redes sociais, fragilizaria a imagem do governo perante o Congresso e a opinião pública. E isso poderia colocar em risco uma das prioridades de sua gestão: a aprovação da reforma da Previdência, que será apresentada na semana que vem.

A gota d’água para Bolsonaro, que recebia recomendações para manter o aliado no governo, foi o vazamento de diálogos privados entre Bolsonaro e Bebianno, exclusivos da Presidência, ao site O Antagonista e à revista Veja.

Ele então fora chamado de mentiroso por Carlos Bolsonaro, filho mais velho, vereador no Rio de Janeiro e estrategista digital de Bolsonaro – embora ainda sem cargo oficial. No Twitter, Carlos postou no Twitter que Bebiano mentiu ao jornal O Globo ao dizer que conversara com Bolsonaro três vezes na véspera. O vereador chegou a divulgou um áudio do Presidente como prova.


Crise

Bolsonaro, que havia acabado de receber alta após 17 dia internado, resultado da reversão da colostomia, apoiou a decisão do filho e chegou a compartilhar suas mensagens. E em entrevista na Record, confirmou que não falou com o ministro.

E mais: determinou a abertura de inquérito da Polícia Federal sobre o esquema de candidaturas laranjas de seu partido e que, se Bebianno estivesse envolvido, “o destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens”, ou seja, deixar o governo.

Agora, aliados de Bolsonaro querem que o filho Carlos reduza o tom de postagens nas redes sociais que possam comprometer o governo. Desde quarta, ele tem publicado apenas mensagens de ações governamentais e, inclusive, um elogio a Mourão, a quem já dirigiu diversas críticas recentemente.

A avaliação é a de que Carlos, que tem um temperamento considerado difícil, pode até, temporariamente, reduzir o tom das críticas a integrantes do governo nas redes sociais, mas que é impossível afastá-lo definitivamente.

Laranjas

A primeira denúncia sobre os laranjas do PSL mostrou que o atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, patrocinou um esquema de candidaturas de fachada em Minas que também receberam recursos volumosos do fundo eleitoral do PSL nacional e que não tiveram nem 2.000 votos, juntas.

Parte do gasto que elas declararam foi para empresas com ligação com o gabinete de Álvaro Antônio na Câmara dos Deputados. Após essa revelação, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, afirmou que esse caso deveria ser investigado. O ministro do Turismo balançou, mas não caiu.

O grupo do atual presidente do PSL, Luciano Bivar (PE), recém-eleito segundo vice-presidente da Câmara dos Deputados, criou uma candidata laranja em Pernambuco que recebeu do partido R$ 400 mil de dinheiro público na eleição de 2018. O dinheiro foi liberado por Bebianno.

Maria de Lourdes Paixão, 68, que oficialmente concorreu a deputada federal e teve apenas 274 votos, foi a terceira maior beneficia.

Já nesta semana, a Folha revelou ainda que Bebianno liberou R$ 250 mil de verba pública para a campanha de uma ex-assessora, que repassou parte do dinheiro para uma gráfica registrada em endereço de fachada —sem maquinário para impressões em massa. O ministro nega qualquer irregularidade.

E depois da troca de áudios no Twitter, e uma ajuda inadvertida de Carlos Bolsonaro, desafeto de Bebiano, o então ministro e ex-presidente do partido do presidente, caiu. E atirando, como visto em sua postagem no Instagram, com um texto sobre “lealdade”.