14 de agosto de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Vale desautoriza seu advogado a falar sobre tragédia de Brumadinho

Sergio Bermudes disse não haver razões determinantes de sua responsabilidade e que diretoria não se afastaria “em hipótese alguma”; Justiça já determinou o bloqueio de R$ 11,8 bilhões

Um dos principais advogados da Vale, Sergio Bermudes, disse que “não enxerga razões determinantes de sua responsabilidade” no acidente da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais. Não só isso, ele disse que a diretoria da empresa não se afastará de seu comando “em hipótese alguma”.

Ele reagiu após o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que defendeu no domingo (27) o “afastamento cautelar” e “urgente” de toda a diretoria da empresa. “Por que uma barragem se rompe? São vários os fatores, e eles agora vão ser objeto de considerações de ordem técnica”. Bermudes, disse o advogado.

Não demorou muito, a própria empresa corrigiu o profissional: A Vale informou, por meio de nota, que não autoriza ninguém a falar em nome da empresa após o rompimento da barragem. O texto foi divulgado logo depois da declaração de Sergio Bermudes:

“A Vale esclarece que não autorizou nem autoriza terceiros, inclusive advogados contratados, a falar em seu nome. A Vale volta a ressaltar, de forma enfática, que permanecerá contribuindo com todas as investigações para a apuração dos fatos e que esse é o foco de sua diretoria, juntamente com o apoio às famílias atingidas”.

Punição

O rompimento da barragem de Brumadinho deve ser investigado como “um crime”, afirmou à BBC News Brasil o relator especial das Nações Unidas para Direitos Humanos e Substâncias Tóxicas, Baskut Tuncak.

Segundo o relator da ONU, as autoridades brasileiras deveriam ter aumentado o controle ambiental, mas foram “completamente pelo contrário”, ignorando alertas da ONU e desrespeitaram os direitos humanos dos trabalhadores e moradores da comunidade local.

O presidente em exercício, Hamilton Mourão, defendeupunição para os responsáveis pelo rompimento da Barragem. Segundo ele, a investigação tem identificar os culpados e prever punição. “Agora, tem que punir mesmo, punir mesmo”, afirmou, na saída da Vice-Presidência.

“Punição tem que ser a que dói no bolso que já está sendo aplicada. Segundo, se houve imperícia, imprudência ou negligência por parte de alguém dentro da empresa, essa pessoa tem que responder criminalmente. Afinal de contas, quantas vidas foram perdidas nisso aí?”. Presidente em exercício, Hamilton Mourão.

Perguntado se não seria o caso de a diretoria da Vale, empresa responsável pela barragem, ser afastada durante a investigação, Mourão respondeu: “Essa questão da diretoria da Vale está sendo estudada pelo grupo de crise. Vamos aguardar as linhas de ação que eles estão levantando”.

Mais cedo, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, disse, em São Paulo, que os responsáveis pela tragédia com o rompimento das barragens da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho, nos arredores de Belo Horizonte (MG) devem responder criminalmente.

Amanhã (29), ela se reúne com o o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, para conversar sobre as prioridades do Judiciário e do Ministério Público em relação à tragédia. Para Raquel Dodge, a empresa e os envolvidos no acidente devem responder criminalmente.

A pedido do Ministério Público do Trabalho em Minas Gerais (MPT-MG), a Justiça do Trabalho autorizou o bloqueio de R$ 800 milhões da mineradora Vale, responsável pela barragem na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Até o momento, a Justiça já determinou o bloqueio de R$ 11,8 bilhões das contas da mineradora.

Segundo o MPT, a quantia será destinada ao pagamento de direitos trabalhistas, assegurando “as indenizações necessárias a todos os atingidos, empregados diretos ou terceirizados, pelo rompimento da barragem na mina”.

Resgate

Equipes de resgate retomaram os trabalhos de busca na madrugada desta segunda-feira focadas em retirar corpos que estariam dentro de um ônibus encontrado no mar de lama decorrente do rompimento de uma barragem de mineração da Vale em Brumadinho (MG), o que deve elevar o número de 60 mortes confirmadas até o momento.

O número não considera um ônibus com corpos próximo ao local onde ficava o refeitório da mineradora Vale, responsável pela barragem, encontrado no início da noite de domingo, 27.

Dos 60 mortos, 19 foram identificados. Além disso, a Vale informa que ainda há 305 pessoas desaparecidas. O número aumentou em relação ao que era no início do dia porque a empresa descobriu mais possíveis atingidos que não estavam na lista inicial, por meio de familiares deles.

Neste domingo os regates só aconteceram a partir das 15h. As buscas estiveram interrompidas a partir das 5h30 deviso ao risco de rompimento de outra barragem no complexo.  A população do entorno foi afastada de suas casas e os resgates foram suspensos até que as autoridades descartaram o risco de um novo rompimento.

Nenhuma pessoa foi resgatada viva durante o dia. O tenente-coronel Eduardo Angelo, comandante da operação dos bombeiros, reconheceu que é “bem pequena” a chance de ainda haver sobreviventes. “Há possibilidade de se encontrar com vida sim. No entanto, a literatura que trata sobre esse assunto demonstra que a partir de 48 horas de empenho a chance de encontrar vida é bem pequena. Existe [essa chance]? Já aconteceu? Sim, já teve gente soterrada por mais de 30 dias, só que é normalmente um ponto fora da curva”, disse Angelo.

 

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