29 de julho de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Com ‘nebulização de cloroquina’, Bolsonaro não tem sinais de recuo, apenas de malícia

Seja por ignorância extrema ou pura maldade, presidente segue com o pé no acelerador passando por cima de 300 mil mortos por covid-19

Com saudades do seu tempo de deputado federal do baixo clero, ou mesmo sem nunca ter se desapegado do papel que (não) fez em quase três décadas, Jair Bolsonaro, hoje presidente da República, inventou de ligar para uma rádio no interior do Rio Grande do Sul. Para incentivar que pacientes com Covid-19 recebam nebulização de cloroquina.

“Nós temos uma doença ainda que é desconhecida, novas cepas, e pessoas estão morrendo. Os médicos têm o direito, ou o dever, no momento em que falta o medicamento específico para aquilo, com comprovação científica, ele pode usar o que chama de off label, fora da bula. E no Brasil virou um tabu, praticamente é criminoso quem fala disso”. Jair Bolsonaro, sobre a ação de uma médica (justamente) demitida após essa prática.

Para quem achava que iria durar aquele seu momento bonzinho, horas após o discurso de Lula, só naquele dia usando máscara e defendendo vacinação no país, está vendo um filme diferente. O supernegacionista continua sentado no trono de kryptonita do Executivo.

Bolsonaro não tirou o manto quando o total de mortos no Brasil superaram os do H1N1. Nem quando. quando países entraram em lockdown, ou quando ele mesmo foi infectado. Muito menos quando Trump foi internado (e não reeleito). Nem diante das mortes, afinal, ele não é coveiro e ‘todo dia morre gente’.

A situação é a pior possível: mesmo que dentre as vítimas da covid-19 estejam 1/3 das pessoas que ele afirmava não serem grupo de risco, o presidente não vai voltar atrás. É claro e evidente que seu foco é total na recuperação da economia, mesmo que de forma míope e obtusa não veja sua relação direta com a questão sanitária.

Bolsonaro pode estar agindo assim por ser incrivelmente burro e influenciável. Beirando a insanidade, se perdeu no papo dos terraplanistas negadores de vacina, administrando toda sua energia em uma guerra antiquada contra o PT e o ‘avanço do comunismo’. Ele pode realmente acreditar que o vírus não existe e que os mortes são fabricação dos estados e municípios.

Pode ser também que ele aja por pura crueldade e que tenha seu foco não em 2021 ou 2022, mas em 1964. Seja por ainda assim não acreditar no vírus ou, vá lá, já ter sido vacinado (não dá pra saber, seu cartão de vacinação virou segredo por um século), não importa quem fique com sequelas ou morra, sua marcha genocida seguirá a toda tocada.

Independente da razão, a consequência seria a mesma: não vamos ficar apenas nas 3 mil mortes diárias e nem em um total de 300 mil mortes. O homem já foi à Justiça para derrubar os decretos, falando que eles são um estado de sítio, algo que ele desesperadamente quer impor.

Acreditando que o luto seja ‘frescura ou mimimi’, Bolsonaro já falou não se importar nem com a morte da mãe. Por que se importaria com um brasileiro qualquer, seja oposição ou mesmo seu gado?

E diante desta frustração, iniciamos mais uma semana perguntando: com o presidente claramente não recuando em suas ações, o que mais precisa acontecer para ele ser retirado? É evidente que daqui pra frente, só piora.

Em seu aniversário, por exemplo, ganhou de presente mais 1290 mortos por covid-19, no pior domingo da pandemia e falou mais pérolas, como ‘só Deus me tira daqui’. Senhor, quantas mortes mais são necessárias?