29 de maio de 2022Informação, independência e credibilidade
Economia

Custo da alimentação é o mais caro dos últimos 100 anos, diz FMI

Covid, guerra na Ucrânia, concentração de renda na Ásia/África e mudanças climáticas provocam o fim de uma era de alimentos relativamente baratos

Enquanto as Nações Unidas apontam que em março o índice global de preços de alimento atingiu o maior nível em 61 anos, o FMI (Fundo Monetário Internacional), que contabiliza esse dado deste 1900, aponta um recorde de cem anos.

De uma forma ou de outra, há um consenso: comer está muito caro.

O patamar atual supera as marcas do período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e da primeira crise mundial do petróleo (1973-1974), segundo a ONU (Organização das Nações Unidas). Os dados do FMI sugerem que fica atrás somente do nível registrado após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A inflação de alimentos, que vinha subindo desde 2000 e ganhou força antes do início da pandemia, no final de 2019, perdeu o controle com o início da guerra na Ucrânia.

Além da Covid-19 e a guerra, temos o aumento da renda na Ásia e na África e mudanças climáticas que tornam safras imprevisíveis. Isso tudo marca o fim de uma era de alimentos relativamente baratos, que ajudaram a reduzir a pobreza e a fome no mundo na segunda metade do século 20.

Brasil

O Brasil não está muito distante dessa situação, embora viva uma situação curiosa: o preço dos alimentos explodiu, assim como o dos combustíveis, empobrecendo a população. Mas as contas públicas melhoraram e o risco fiscal diminuiu com o aumento da arrecadação de impostos.

Juntas e antes da guerra, Ucrânia e Rússia respondiam por 25% das exportações globais de trigo e 15% das de milho. O conflito também fez o preço do petróleo disparar mais de 45% neste ano, pressionando fretes e a cadeia de distribuição de alimentos.

Nenhum dos itens alimentícios no Brasil tem variação em 12 meses abaixo de dois dígitos. Mesmo sem contar commodities como grãos, o conjunto de hortaliças e legumes subiu 46,2% no período, segundo o IPC da FGV. A estimativa pessoal de Braz para a inflação de alimentos neste ano é de 13%, bem acima dos 7,5% a 8,5% que o mercado prevê para o IPCA, índice oficial geral do IBGE.

E quanto mais pobre, mais a inflação de alimentos é percebida, com habitação e comida consumindo a maior parte da renda. Segundo estratificação do Datafolha, 53% das casas brasileiras atravessam o mês com menos de dois salários mínimos (R$ 2.424).

Nelas, 35% acusaram falta de alimentos. Levantamento da Rede Penssan ao final de 2020 (antes da disparada dos alimentos no ano passado e agora) mostrava que mais da metade (55%) dos brasileiros sofria de algum tipo de insegurança alimentar (grave, moderada ou leve).