27 de setembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro diz que era obrigado a devolver salário, 13º e férias

Valores eram entregues em dinheiro vivo nas mãos da advogada Ana Cristina Siqueira Valle, segunda mulher do presidente

Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), contou que no período em que foi funcionário do filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) era obrigado a devolver mensalmente 80% de seu salário.

A informação foi revelada pela coluna do jornalista Guilherme Amado, no portal Metrópoles. Mais conhecido como Marcelo Nogueira, o ex-funcionário afirma que, além dos 80% do salário, tinha que entregar porcentagem semelhante do 13º salário, das férias, do que recebia como vale-alimentação e ainda da restituição do imposto de renda.

Segundo Nogueira, ele precisava entregar esses valores em dinheiro vivo nas mãos da advogada Ana Cristina Siqueira Valle, segunda mulher do presidente Jair Bolsonaro.

Isso ocorreu todos os meses ao longo de mais de quatro anos. Ele foi assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj no período de 1º de fevereiro de 2003, início do mandato de Flávio, até 6 de agosto de 2007, quando Ana Cristina e Jair Bolsonaro se separaram.

Nos anos de 2003 e 2004, o salário bruto de Nogueira era de R $1.791,79. A partir de 2005, o salário passou a ser de R$ 4.253,69. Já em 2006, foi de R$ 4.466,37. Ao todo, nos mais de quatro anos na Alerj, ele recebeu em salário bruto um valor de R$ 176.700. Esse valor corrigido pela inflação do período chega a R$ 382.805.

Nessa mesma época, a ex-mulher do agora presidente era a chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro, em seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Rio. As mesmas condições, segundo ele, foram impostas a funcionários de Carlos na Câmara. “Tudo a mesma coisa”, afirmou Nogueira, à coluna.

Em maio, o TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Carlos, Ana Cristina e outros 25 assessores para apurar a suspeita de rachadinha e da nomeação de funcionários fantasmas no gabinete do vereador.

Já no fim do casamento, Ana Cristina e Jair Bolsonaro eram donos de 14 imóveis dos quais cinco foram comprados em dinheiro vivo. Questionado se sabia que os imóveis estavam em nome de Ana Cristina e Bolsonaro, o ex-assessor afirmou que “ela colocava, mas ele não concordava muito não”.

O casal ainda tinha carros, ações e dinheiro vivo nos cofres da família. “Ela comprava muita joia. Sei que ela comprava muita coisa”, diz Marcelo.

Jair Renan Bolsonaro e sua mãe, Anna Cristina Vale, em nova residência no Lago Sul em BrasíliaI. Foto: Eduardo Militão

Na quebra de sigilo bancário, autorizada no âmbito das investigações de Flávio Bolsonaro, é possível ver os saques mensais feitos por Nogueira ao longo de 2007. Em 13 oportunidades Marcelo realizou saques de mais de R$ 1 mil, chegando até a se endividar nesse período. Em abril daquele ano, por exemplo, dois dias após receber R$ 4 mil da Alerj, ele fez um saque de R$ 3 mil.