Golpe lá pode! Golpe cá é só “manifestação pacífica” com a Bíblia e um batom na mão

A arte bolsonarista de enxergar democracia no espelho retrovisor

Os bolsonaristas têm um talento raro: o de negar a própria sombra enquanto aplaudem o reflexo alheio. Basta olhar para o Nepal. Lá, uma onda de protestos violentos contra o governo arrasta ruas, prédios e reputações. A extrema-direita brasileira vibra, chama de “reação legítima do povo”, “movimento contra a tirania”, e até tenta vestir a bandeira nepalesa no discurso.

Mas quando lembramos do 8 de janeiro, aquele ensaio mambembe de golpe tropical, a conversa muda. De repente, os mesmos que aplaudem a violência alheia juram de pés juntos que aqui foi só “um bando de velhinhas com a Bíblia na mão” e “uma senhora confundida por causa do batom vermelho”. Que golpe, que nada! Foi, no máximo, um piquenique na Praça dos Três Poderes.

A ironia é clara: os heróis do teclado que pregavam “intervenção já” se acovardaram quando a conta chegou. Preferiram posar de vítimas do “sistema” do que assumir que tentaram, sim, rasgar a Constituição.

Enquanto isso, o Nepal arde. E os bolsonaristas batem palma, porque é sempre mais bonito ver a revolução no quintal do vizinho. Aqui dentro, qualquer tentativa fracassada vira “narrativa da esquerda” e perseguição contra “patriotas de bem”.

No fim, a hipocrisia é tão grande que quase dá pena. Quase. Porque, convenhamos, quem chama depredação de golpe no Nepal e de “ato cívico” em Brasília não merece piedade, mas um bom espelho.

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