20 de abril de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Guerrilha virtual do presidente pede “Jair Condensado até 2026”

Alta aceitação popular é o escudo do presidente e, continuando assim, “enfiar leite condensado no rabo da imprensa” seguirá sendo aceito e celebrado

Como esperado (e previsto aqui), o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores dominaram a narrativa da farra bilionária dos gastos em alimentação, em plena pandemia, e acreditam ter saído por cima.

Com a certeza da impunidade, é bom enfatizar, pois no discurso repleto de ódio entalado na garganta, foi celebrado com palmas e gritos um presidente afirmar que R$ 16 milhões em leite condensado era pra “enfiar no rabo da imprensa”.

Não é a primeira vez que, apoiado por aqueles que se dizem cidadãos de bem e religiosos, as denúncias contra o presidente e seu entorno são manipuladas, distorcidas e aparentemente “criadas apenas para atingir o presidente”.

E dando com os ombros – na verdade, nem tanto, mais para “mandando se foder e tomar no cu” – os gastos com alimentações são mais uma situação que não precisou nem ser um problema enfiado para debaixo do tapete: virou motivo de orgulho.

Todos os gastos, que podem ser conferidos acima, foram abraçados por seus apoiadores. A bola da vez entre eles é torcer não só contra o “impeachment de um corrupto despreparado”, mas pela “reeleição de um mito honesto”. A tendência agora é pedir Jair Condensado até 2026.

Os memes do início da semana que focaram o bendito leite condensado, de forma equivocada e apropriada por bolsonaristas, foram alterados de forma engajada mais ainda. Eles sabem: para acabar com a inquietação de um apelido, não só o ignore, como também passe a usá-lo com orgulho.

E Bolsonaro deveria saber disso, pois, segundo relatório do Exército, o presidente é acusado de ser ‘corno, muambeiro’ e de ter planejado um atentado terrorista.

Sim, a “opinião do gado” importa

Muitos devem estar se perguntando: por que dar tanta relevância para os seguidores do mito, os que estão fechados com o presidente, com a opinião do gado? Pois bem, o motivo é muito simples: o problema não é só Bolsonaro, mas o massivo entorno que o apoia.

No vídeo em que o presidente que se diz Cristão prolifera seu ódio contra a imprensa, ao redor dentre os aglomerados na churrascaria é de chamar a atenção a cara de babaca e de orgulho que Ernesto Araújo faz.

Ele é “apenas” o ministro das Relações Exteriores, o homem que deve lidar de forma diplomática com outros países em nome do Brasil. O que ficou mais importante ainda durante essa pandemia.

Mas a idolatria cega deste cidadão, um olavista de carteirinha que chegou a escrever um artigo com a palavra “comunavírus” no título, é aquele seguidor de Bolsonaro que nunca vai mudar e não tem redenção.

Dentre os que ainda se dizem “fechados com Bolsonaro”, estão, também, os frustrados com anos de corrupção no Brasil, os iludidos pelo discurso de um homem que se diz próximo de Deus e/ou com a ideia de que alguém semelhante tenha ocupado o posto mais importante do Brasil.

E são alguns destes que precisam mudar de opinião. Urgente. São esses que precisam abrir os olhos do culto que estão participando, mas para isso precisam de uma ajuda. Os extremistas existem – como Ernesto Araújo – mas no contingente dos 30% ou mais de apoiadores que o presidente tem, muitos estão na corda bamba o suficiente para mudar de lado.

Os arrependidos, chamados de Arrependinaros, existem. São tantos que triplicariam os votos de Amoedo em 2018. Mas não são o suficiente. É preciso mais do que aqueles que estavam com Mandetta, com Moro e saíram. E, quem sabe, que estão com Paulo Guedes e também abandonariam o barco com a saída do atual Ministro da Economia.

O extremista não vai largar o presidente nem se a própria mãe morrer asfixiada na sua frente. Ele seria capaz de culpar a Globo por colocar medo nela e provocar essa morte. Mas muitos que foram afetados nesta pandemia, pela perda de seus negócios ou, pior, de pessoas próximas ou entes familiares, se não mudaram de lado, estão próximos disso.

Rodrigo Maia, presidente da Câmara em seus últimos dias de mandato, foi idiota e escorregadio em só mirar em Bolsonaro às vésperas de uma eleição no Congresso, e não usar nenhum dos mais de 30 pedidos de impeachment que estão em sua gaveta. Mas ele sabe que o impeachment, um processo político, precisa de apoio da sociedade civil.

Enquanto Bolsonaro tiver tantos apoiadores, nada acontecerá e ele seguirá livre para fazer, comprar e falar o que quiser, sem precisar se preocupar com as consequências.

O foco no leite condensado (mais de R$ 14 milhões só para o Ministério da Defesa) foi uma bola matada no peito para quem já teve que lidar com Fabrício Queiroz (mais o cheque da esposa e a rachadinha do filho) ou ligações com execuções e queimas de arquivo (como a vereadora Marielle Franco e o miliciano Adriano da Nóbrega).

Há uma lista extensa de crimes, citações e obviedades do que há errado em sua presidência e ações como presidente. Mas Bolsonaro ficará imune – nas esferas política, jurídica e principalmente militar – se não for atentado para o óbvio: o maior escudo do presidente é sua inacreditável aceitação popular e nada acontecerá com ela mantida assim.

É preciso sim pensar no que o gado está pensando. E não adianta torcer para que eles sejam dizimados por queimadas na Amazônia, Pantanal ou flagelados pelo coronavírus. Eles aceitam e abraçam esse culto suicida. Antes de tudo, é preciso ter o controle da narrativa, esclarecer o óbvio e não perder mais oportunidades com acusações que não são 100% pontuais.

Se Bolsonaro sobreviveu à saída de Moro, prisão de Queiroz, acusações contra o filho Flávio ou os desmandos na pandemia, as brincadeiras e foco no bendito leite condensado custaram mais caro que os R$ 15,6 milhões gastos. Há outras prioridades. E é preciso entender isso, ou então, minha nossa, Jair Condensado até 2026