21 de junho de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

‘Mais corrupto da história’: Ex-aliado de Bolsonaro detalha os milhões do orçamento paralelo

‘Pior que o mensalão’, diz deputado federal Júnior Bozzella sobre bastidores dos R$ 92 milhões dentro do PSL

O deputado federal paulista Júnior Bozzella presenteou Jair Bolsonaro com uma camisa personalizada do Santos, estampada nas costas com o nome do presidente e o número 17 do PSL. “Agora meu Santos deslancha”, disse o deputado, na ocasião.

O encontro descontraído entre os dois, em fevereiro de 2019, que tinham acabado de ser empossados nos cargos que ocupam atualmente, era o retrato de uma relação estreita que havia beneficiado ambos. O clima de harmonia, porém, não duraria muito.

No segundo semestre de 2019, após a crise interna que rachou o PSL, Bozzella foi um dos primeiros aliados a romper com Bolsonaro e a sair em defesa do presidente do partido, Luciano Bivar. O reposicionamento estratégico lhe rendeu a posição de vice-presidente da agremiação.

Semanas atrás, o nome do deputado apareceu, sem muito destaque, entre os agraciados com o direito de indicar o destino de verbas do chamado orçamento paralelo, o que seria destinado apenas aos aliados mais fiéis do governo.

E em entrevista à Revista Crusoé, Júnior Bozzella explicou que esse dinheiro do orçamento que lhe foi entregue acabou sendo um acidente de percurso. E confirma a lógica da estratégia do Planalto para comprar apoio político à base de recursos públicos.

Antes aliados, Bolsonaro e Bivar, presidente do PSL, racharam por causa de dinheiro

Bozzella contou ainda os bastidores da distribuição de 92 milhões dentro do PSL. O grosso do valor, diz ele, foi para a ala bolsonarista ainda existente no partido.  “É um escândalo pior que o mensalão”, diz o deputado, que classifica o governo de Jair Bolsonaro como o “mais corrupto da história”.

“Esse é o governo mais corrupto da história. Daqui a dez anos, as pessoas vão olhar para trás e vão ver que o mensalão foi barato perto disso. É muito mais escandaloso, é um estupro moral com a sociedade, porque quem acreditou nesse governo nunca imaginou que estaria construindo o governo mais corrupto da história, seja em áreas como o meio ambiente ou no toma lá da cá dentro do Parlamento. Por isso que eu digo que o mensalão, se comparado a isso, foi ‘barato’ para o povo brasileiro”. Júnior Bozzella.

Em entrevista à revista, Bozella diz que o orçamento paralelo continuou após a eleição da presidência da Câmara. Segundo ele, “ninguém escondeu as propostas da emenda extra para quem apoiasse a candidatura de Arthur Lira”.

“O Palácio do Planalto entrou de cabeça nessa eleição e usou o dinheiro público para cooptar os deputados e eleger o presidente da Câmara. Mas a cada pauta, a cada discussão, a cada revisão de orçamento, em todas essas discussões, são sempre levadas em conta as emendas extras que são apresentadas a deputados e senadores”. Júnior Bozzella.

Segundo o deputado, o apoio a Arthur Lira veio em troca de acordos específicos. “Numa determinada votação, liberação de ‘x’ milhões para aquela votação. A última (liberação) que teve foi por causa do auxílio emergencial. Aí teve mais um quantitativo para a eleição do Arthur”, completou.

Hoje, claro, ele se diz mais um dos arrependidos. Antes, ele acreditava que o presidente poderia ficar no poder por 30 anos se ele tivesse cumprido aquela agenda que ele se propôs a fazer. Mas isso não durou nem um ano.

“Com o passar do tempo a gente foi vendo que aquilo tudo foi um discurso e a teoria não se transformou em prática. Bolsonaro criou uma expectativa nas pessoas e a gente tinha uma expectativa de um país melhor, mas com uma expectativa exacerbada, um grande cunho de esperança, e isso acabou me frustrando absurdamente”. Júnior Bozzella.