29 de julho de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Mentiras ao vivo: Bolsonaro diz que máscaras sufocam, defende corrupção e ameaça caso Lula vença em 2022

Em live, presidente ainda disse que Aécio ganhou em 2014 e ele venceu já no 1º turno de 2018; Sobrou ainda para CPI e para “caixa preta do BNDES”

Virou rotina: semanalmente, o presidente Jair Bolsonaro realiza suas lives, para se falar diretamente com seu eleitorado. E em toda quinta-feira, surgem o que costumadamente chamam de “desinformação”, “polêmicas” ou “fake news”. Mas não há outra maneira de interpretar: suas lives são um compilado de ódio e crimes de eleitorais ou de responsabilidade. Além de, claro, muitas mentiras.

Nesta quinta (17), por exemplo, ainda achando pouco o número de mortos na pandemia (ou muito, afinal, ele até inventou um relatório do TCU sobre “inflação” na contagem de óbitos), o presidente resolveu falar do “perigo das máscaras”. E como elas podem ‘reduzir a oxigenação’:

“O cara tá com a máscara, carro fechado, ele respirando ali, vai ter uma oxigenação menor no seu corpo, não precisa ser médico para dizer isso aí, pode levar a acidentes”. Jair Bolsonaro, presidente.

A fala, claro, é uma mentira. E não é preciso ser médico (muitos inclusive realizam cirurgias usando o equipamento sem nunca terem perdido a destreza) pra entender que o oxigênio passa livremente, com máscara ou não. O equipamento faz é diminuir a entrada de partículas como saliva e perdigotos, que estariam contaminadas. Estas sim são barradas.

O incômodo dele foi sobre quem criticou aquele parecer, que ele mesmo inventou, sobre a o fim da necessidade das máscaras, mesmo com a maioria da população ainda longe de ter sido vacinada.

Quem está contra o parecer sobre máscaras é negacionista, porque não acredita na vacina”. Jair Bolsonaro.

Aparentemente seu histórico de atleta o permite fazer ginástica mental de duplipensamento. Afinal, quem não acredita em vacinas e joga contra elas é o próprio Bolsonaro, que mais uma vez já disse que não vai se vacinar por ter sido infectado. Mesmo com casos de reinfecção e curta duração da imunidade natural do corpo serem mais do que comprovados.

Eleições

E como pra ele as eleições do ano que vem são mais importantes que a pandemia de agora. ele reforçou mais uma vez: que se não houver voto impresso em 2022 e que se Lula vencer “por causa disso”, haverá ‘convulsão’. A mensagem foi uma ameaça direta ao ministro Luís Barroso, atual presidente do TSE, que comentou no Congresso sobre como o modelo atual é melhor e recuar seria retrocesso.

“Vamos respeitar o parlamento brasileiro, caso contrário teremos dúvida nas eleições. Podemos ter um problema seríssimo no Brasil, pode um lado ou outro não aceitar, criar uma convulsão no Brasil”. Jair Bolsonaro.

E ligando uma coisa ou outra, o presidente, que em 1994 teve votos fraudados na última eleição antes do uso de urnas eletrônicas no Brasil, falou que o sistema não muda apenas para mudar Lula. Que seria favorecido novamente, assim como quando foi decidido sua soltura e recuperação de direitos políticos:

“A preocupação dele [Barroso] é outra? Voltar aí aquele cidadão, o presidiário, para comandar o Brasil? Se tira o presidiário da cadeia, ato contínuo, tornam-o elegível, para não ser presidente?”. Jair Bolsonaro.

O atual presidente vai além e cita dois exemplos que ele tirou da cabeça: que Aécio Neves teria vencido a eleição presidencial de 2014 e que o próprio Bolsonaro venceu a eleição de 2018 já no primeiro turno.

Antes de tudo: só mesmo uma pessoa como Bolsonaro para afirmar que houve fraudes em uma eleição que ele venceu. E assim como não aconteceu em 2018 e em 2014, mas desde a adoção das urnas eletrônicas no Brasil, em 1996, nunca houve nenhuma comprovação de fraude nas eleições. Diferente de um ano antes.

Caixa-preta e corrupção

Promessa de campanha, Bolsonaro afirmou que encontraria um “trilhões” desviados no BNDES ao abrir a caixa-preta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Ele até colocou o amigo dos filhos, que tem costume de arrombar portões durante festas, à frente de uma auditoria que não foi barata para fazer isso.

Em dezembro de 2019, o banco concluiu uma auditoria interna com custo de R$48 milhões para apurar a suposta “caixa-preta” da empresa. A investigação levou quase dois anos e resultou em um relatório de oito páginas. Não encontraram nada. E agora ele muda o discurso.

“Não é caixa-preta aquilo lá. Tudo foi aprovado por alterações de medidas provisórias, então não foi caixa-preta, na verdade. Está aberto aquilo lá. Eu também pensava que era caixa-preta”. Jair Bolsonaro.

Bem diferente do que ele dizia em 2018

Curiosamente ou não, o presidente resolveu defender a corrupção. Ou ao menos os agentes que a praticam. Abertamente, ele defendeu projeto aprovado ontem pela Câmara dos Deputados, que altera a Lei de Improbidade Administrativa. O texto alivia o combate à corrupção, e estabelece a necessidade de comprovação da intenção de lesar a administração pública.

“O que visa o projeto é flexibilizar um pouco isso daí. Não é escancarar as portas para a corrupção. Tem prefeito que fica 20 anos respondendo a processo”. Jair Bolsonaro.

Vale lembrar, o atual presidente da Casa e seu candidato, o deputado Arthur Lira, foi condenado em duas ações de improbidade administrativa pela Justiça de Alagoas.

Os casos são resultados de investigações da Operação Taturana, deflagrada em 2007 pela Polícia Federal, que apura desvios na Assembleia Legislativa do estado, onde Lira cumpriu mandato de 1999 a 2011. Um dos processos está na segunda instância há mais cinco anos.

“Quem votou contra por acaso é aquele pessoal de esquerda?”, perguntou Bolsonaro, que admitiu não ter “tomado conhecimento do projeto”.

E para encerrar por aqui, pois o festival de besteiras foi muito grande, ficamos com essa defesa do porte de armas:

“A arma protege a tua vida, a tua família. Eu não consigo dormir se não tiver uma arma do meu lado”. Jair Bolsonaro, presidente.