4 de dezembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Ministra da Família e Direitos Humanos: “Menina usa rosa! Menino usa azul!”

Atrasada no tempo, Damares Alves declarou “uma nova era no Brasil”

Os 22 ministros de Jair Bolsonaro assumiram suas pastas nesta quarta-feira (2), incluindo Damares Alves, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, que parece liderar uma disputa não-oficial de “mais controverso chefe de pasta” do novo governo. Ela assumiu a ponta com o vídeo que circula feito durante sua posse.

“Menina usa rosa! Menino usa azul!”. Algo mais datado impossível. Mas que não poderia ter uma mensagem mais clara. A advogada e pastora evangélica, então assessora de Magno Malta, ex-aliado de Bolsonaro, Alves declarou uma nova era no Brasil. À frente da pasta da família, já está declarado que homossexuais não terão vez em sua pasta.

Esta no discurso: a alegria em que entona o grito de guerra, ao lado de uma bandeira de Israel, que ganhará embaixada brasileira, é de uma simbologia que chega para assustar a já polêmica lista de ideias e sugestões da ministra. E como caberá à pasta coordenar as políticas e as diretrizes destinadas à promoção dos direitos humanos, o futuro é trágico.

Bolsa Estupro

Em dezembro, a então futura ministra disse que deve ser priorizado no Congresso Nacional o projeto de lei do Estatuto do Nascituro, que dá direitos ao feto e pode restringir ainda mais o aborto legal: a  proposta é cria uma espécie “bolsa-estupro” para mulheres que decidirem ter o filho após serem violadas à força.

Para a ministra, “a gravidez é um problema que dura só nove meses”, enquanto que “o aborto caminha a vida inteira com a mulher”. E isso pouco antes de assumir o ministério, após ter se reunido com o presidente eleito. A falta de sentido nesta frase é gritante, ainda mais se for levado em conta que ela é da pasta da ‘Família’.

“Eu sou contra o aborto. Nenhuma mulher quer abortar. Elas chegam ao aborto, porque, possivelmente, não foi lhe dada nenhuma outra opção. A mulher aborta acreditando que está desengravindando, mas não está”. Damares Alves.

Ela acredita que quando autorizado o aborto, de forma indiscriminada e endêmica, as mulheres não mais se tornariam mães, pois nenhuma delas levaria a gestação até o fim. É o extremismo até em argumentos: “nenhuma quer abortar”, como ela mesma diz.

Religião

Para Damares, a discussão do aborto mostra que foi criada uma “falsa guerra entre cristãos e LGBT. Essa guerra não existe e vamos mostrar que essa guerra não existe”. Em suma: do que ela está falando?

É como naquela velha questão: se homossexuais forem norma, não haverá mais crianças, pois todos virariam gays. Um argumento de total insegurança, como a do próprio Bolsonaro, que se recusa a abraçar ou mesmo dizer que ama os filhos homens, pois isso poderia afetá-los. E como seria algo “adquirido”, logo poderia ser “contornado”, ou “curado”. Opinião que ela mesma possui:

“Não há prova científica que exista gene gay. Não há prova científica que o gay nasça gay. Se tivesse, já tinham jogado na nossa cara. A homossexualidade, ela é aprendida a partir do nascimento, lá na infância. A forma como se lida com a criança. Mas ninguém nasce gay”. Damares Alves.

Para a futura ministra, “não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja”. E entenda igreja como ‘evangélica’. As outras estão erradas, como ela bem explicitou ao elogiar o culto do seu então superior, Magno Malta, na comemoração da eleição de Bolsonaro.

“Naquele dia, Deus renovou nossas forças. Porque Deus nos disse que não são os deputados que vão mudar essa nação, não é o governo que vai mudar esta nação, não é a política que vai mudar esta nação, que é a igreja evangélica, quando clama. É a igreja evangélica, quando se levanta que muda a nação”. Damares Alves.

E ela não tem problemas em falar isso abertamente. Para ela “´é o momento de a igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar”. Novamente, ela ficará à frente do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Papel da mulher

Resumindo uma pequena coletânea da futura ministra, fica um alerta para as mulheres que votaram e ainda apoiam Bolsonaro e seu futuro governo: o perigo de retrocesso para elas é enorme.

Muitas das ideias defendidas parecem algo da República de Gilead, a fictícia nação patriarcal militarizada, que tem a bíblia como Constituição e tomou o lugar de boa parte dos Estados Unidos no premiado seriado e livro The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia). Falta de aviso é que não foi.

“Me preocupo com a ausência da mulher na casa. A mulher nasceu para ser mãe. Também, mas ser mãe é o papel mais especial da mulher. A gente precisa entender que a relação dela com o filho é uma relação muito especial. E a mulher tem que estar presente. A minha preocupação é: dá pra gente ter carreira, brilhar, competir, consertar as bobagens feitas pelos homens. Sem nenhuma guerra, mas a gente conserta algumas. Dá pra gente ser mãe, mulher e ainda seguir o padrão cristão que foi instituído para as nossas vidas”. Damares Alves.

 

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