MPF investiga prefeituras por desvio de R$ 6 milhões da Educação para vaquejada

Recursos do Fundeb teriam sido usados para agrotóxicos, peças de tratores e reforma de arena particular da família Higino em Campo Grande e Olho D'Água Grande

O Ministério Público Federal em Alagoas abriu um procedimento para investigar o uso de dinheiro da educação para o pagamento de agrotóxicos, peças de tratores e reforma de uma arena de vaquejada por parte das prefeituras de Campo Grande e Olho D’Água Grande, comandadas pela mesma família.

O caso foi revelado pela Folha no dia 1º de junho após cruzar extratos do Fundeb, mais de 30 notas fiscais e visitar as duas cidades. O procedimento foi instaurado em 3 de junho no 10º Ofício da Procuradoria da República em Alagoas (órgão com atribuição criminal).

Os desvios identificados somam cerca de R$ 6 milhões e incluem gastos de manutenção de carros particulares para construtoras (sem obras de educação) e gastos vultosos para transporte escolar. Nas cidades, ônibus circulam em situação precária, escolas sofrem infraestrutura deficiente e professores recebem remuneração 50% abaixo do piso nacional.

A família do político Arnaldo Higino controla os dois municípios: o sobrinho Teo Higino (PSB) é prefeito pelo segundo mandato de Campo Grande; a mulher de Arnaldo, Suzy Higino (PP), governa Olho D’Água Grande também pelo segundo mandato.

O pai de Arnaldo, Evânio Higino, dá nome a uma arena de vaquejada (privada) na entrada de uma das fazendas do grupo em Campo Grande, que recebeu cobertura nova na arquibancada neste ano custeada com dinheiro do Fundeb das duas cidades.

Enquanto isso, a quadra da escola municipal Evânio Higino está interditada há pelo menos dois anos (telhado destruído) e a escola adiou o início do ano letivo por falta de carteiras. Outros membros da família ocupam cargos: Greicy Higino (sobrinha de Arnaldo, irmã de Teo) é secretária de Educação de Campo Grande; Mara Higino (mulher de Teo) é vice-prefeita em Olho D’Água Grande.

Arnaldo Higino, Suzy Higino, Mara Higino e Teo Higino na convenção do PP em 2024

Arnaldo Higino já é alvo de várias investigações. Em 2017, foi preso em flagrante ao receber propina de R$ 11 mil por esquema de notas fiscais para lavar desvio de dinheiro público (envolvendo recursos da educação, merenda escolar e PDDE).

Em 2011, foi denunciado por desviar água da rede de abastecimento para beneficiar uma de suas fazendas (provocando falta de água em três povoados). Também foi investigado por compra de votos e desvios de dinheiro da saúde (em 2019, foi condenado e fez acordo para ressarcir R$ 429 mil).

A Justiça Eleitoral impugnou sua candidatura em 2020 por condenação por improbidade e suspensão de direitos políticos (na eleição suplementar, o sobrinho Teo Higino assumiu). Arnaldo transferiu seu domicílio eleitoral para Porto Real do Colégio (pretende estender sua influência além das cidades que já controla). Todos os envolvidos foram procurados pela reportagem desde 12 de maio, mas não responderam.

ÚLTIMAS
ÚLTIMAS