23 de fevereiro de 2024Informação, independência e credibilidade
Política

Odiado pela esquerda e direita, Moro vota em Dino e morre politicamente (de novo)

Ex-ministro de Bolsonaro e responsável pela prisão de Lula fica sem ter pra onde ir e apenas conta os dias para sua iminente cassação

A trajetória política do senador Sergio Moro vem sendo um desastre. Alardeado como super ministro da Justiça no governo Bolsonaro, após ter tirado o hoje presidente Lula das eleições 2018, o ex-juiz da Lava Jato sofreu mais um baque após o Estadão ter vazado uma conversa dele com o “Mestrão” no Whatsapp e revelado que ele aprovou Flávio Dino como indicado de Lula ao STF.

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Antes de tudo: houve uma tremenda falha ética com o jornal revelando, com um zoom na tela de celular de um senador, uma conversa privada. Mas o estrago foi feito, da mesma forma que um certo juiz fez ao vazar uma conversa gravada de forma ilegal. No olho por olho, o momento é de “tchau, querido“. E não só entre brasileiros da esquerda.

Moro está chamuscado de todos os lados. Apesar da suposição de promessa de indicação para uma vaga no STF, até então um sonho entre bolsonaristas, o homem que colocou Lula na prisão foi preterido por Jair. O então presidente, ainda amado pela direita, teria feito interferências na Polícia Federal, Moro não gostou e rachou com Jair Bolsonaro. Apenas ele se deu mal.

Bolsonaro é aquele caso raro de político que terá sempre um gado fiel, capaz de autorizar tudo, não importa a falha cabal de seu aliados mais próximos – ou dele mesmo, mas isso é uma outra história, afinal há quem ainda prega que Jair é “o político mais honesto do mundo”.

Exonerado como ministro da Justiça, Moro perdeu apoio dos bolsonaristas. E seu futuro político ficou mais indefinido ainda depois que o STF considerou suas ações na Lava Jato suspeita, anulando praticamente tudo o que ele fez. Moro achava ser o único capaz de vencer Bolsonaro numa eleição presidencial. Resolveu se retirar depois que Lula, solto, concorreu – e viria vencer.

Tendo gasto uma pequena fortuna como pré-candidato presidencial, Moro resolveu tentar a sorte como senador em São Paulo. Como não morava lá e passava mais tempo nos aeroportos daquele estado do que qualquer coisa (ele mesmo disse que era seu hub), foi obrigado a concorrer em Curitiba.

E venceu com o que parecia óbvio: ele estourou o teto de campanha para Senado e hoje pode cair por isso. Antes, passou mais vergonha política ao se aliar com Bolsonaro, que o fritou em praça pública, nos debates presidenciais.

Moro nunca teve para onde correr desde que deixou de ser ministro. Sem suportar algumas ações de seu mito, sabia que não podia ir pela esquerda, pois isso seria absurdo. E no centro não havia espaço, afinal condenou de forma suspeita, segundo o STF, meio mundo deles.

O ex-juiz, logo ex-senador, viu seu ex-aliado, Deltan Dallagnol, perder o mandato pela lei da ficha limpa após decisão do Supremo. Quis o destino que por uma emenda do então deputado federal Flávio Dino, que alterou Lei da Ficha Limpa para acrescentar os membros do Ministério Público.

Moro é o próximo e sabe disso. Tanto que, após atacar membros políticos de todos os lados, agora se vê sem tem quem o defender. Por isso abraçou Flávio Dino ontem. Por que não tem ninguém e está desesperado por um voto favorável no Supremo. Até mesmo do indicado por aquele que prendeu de forma suspeita e mudou para sempre os rumos da política nacional.

O que deve ter doído mais em Moro é que ele pediu para Bolsonaro garantias de uma vaga no STF. Vaga essa que agora vai para outro ministro da Justiça: o de Lula. O afago em Dino é apenas uma tentativa de sobrevida. Nem mesmo o MBL engole mais o ex-juiz. Moro morreu politicamente. De novo.