Votação da anistia é adiada após declarações de Paulinho da Força e crise entre Casas

Conflito com o Senado, desgaste do presidente Hugo Motta e pressão sobre a pauta do Imposto de Renda afastam previsão de votação

A votação do projeto de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, inicialmente prevista para a próxima terça-feira (30), foi praticamente descartada devido ao agravamento da crise política entre a Câmara e o Senado e às repercussões da declaração do deputado Paulinho da Força, que vinculou a tramitação da anistia à aprovação da isenção do Imposto de Renda. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cancelou uma reunião com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e Paulinho, sem reagendamento.

O clima de deterioração começou com a rejeição unânime pela CCJ do Senado da PEC da blindagem, que exigiria autorização do Congresso para abertura de processos contra parlamentares. O gesto foi interpretado na Câmara como um recado claro contra medidas de autoproteção. Em seguida, a fala de Paulinho da Força – “Acho até que se não votar isso, não vai votar IR” – consolidou a percepção de que o Centrão estaria usando a anistia como moeda de troca, condicionando uma pauta popular a um projeto polêmico.

Nesta quinta-feira, Hugo Motta tentou conter os danos, afirmando que “não existe isso de só votar IR se for com a anistia”. A declaração foi vista como uma desautorização a Paulinho da Força e uma tentativa de reduzir o desgaste da Câmara. No entanto, a imagem de Motta como articulador foi abalada. Nos bastidores, deputados do próprio Centrão avaliam que a estratégia de atrelar as pavas é um erro político de alto custo, que coloca a Casa em situações delicadas.

O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) atribuiu o recuo às manifestações de domingo e à derrota da PEC no Senado. “Eles percebem que o clima político aqui é muito difícil para eles”, disse, defendendo que a Câmara priorize pautas como a isenção do IR e a escala 6×1, em vez de “blindagem ou anistia para Bolsonaro”.

Com a anistia em compasso de espera, o foco imediato da Câmara deve ser o projeto de isenção do IR, cuja votação está marcada para 1º de outubro. Caso a anistia seja votada apenas após a proposta econômica, o governo Lula sairia fortalecido, retirando do Centrão seu principal instrumento de barganha. Líderes do bloco admitem irritação com a condução de Motta, considerado um “péssimo articulador” que fragiliza a posição negociadora da Câmara.

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