25 de maio de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro defende a ditadura e manda ministros do STF calarem a boca

Com tons de campanha, cerimônia no Planalto teve despedida dos ministros que vão ser candidatos nas eleições

Na cerimônia de despedida de ministros, nesta quinta-feira (31) no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro (PL) adotou um tom completamente eleitoral. E passou do ponto ao defender a ditadura e mandar ministros do STF calarem a boca.

Além de tudo, no recinto, que contou com ataques ao PT e Lula, menções a Deus, guerra do bem contra o mal, oração, e um “ministro veste azul e menina veste rosa”, o deputado Daniel Silveira (PL-RJ) estava na plateia.

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O bolsonarista tem que colocar, hoje, uma tornozeleira eletrônica por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. E toda a situação do deputado reaça, que ameaçou ministros e democracias, virou um circo, com ele se tornando um mártir da democracia. Justamente na data que marca os 58 do golpe militar de 1964.

“E nós aqui temos tudo para sermos uma grande nação. Temos tudo, o que falta? Que alguns poucos não nos atrapalhem. Se não tem ideias, cala a boca. Bota a tua toga e fica aí. Não vem encher o saco dos outros”. Jair Bolsonaro, presidente.

Inflamado, o presidente disse estar rodeado de inimigos na praça dos Três Poderes e mostrou incômodo por ainda ser alvo de inquéritos. Como a investigação da compra da Covaxin ou julgamentos como possível omissão no desmatamento.

Em outro trecho do discurso, Bolsonaro falou de “inimigos que habitam a região [da praça] dos Três Poderes”, sem citar diretamente ninguém. Desde o início do mandato, o presidente tem atacado sistematicamente o Judiciário, em especial o Supremo.

“Não pode conselheiros o tempo todo dizerem, “calma, espera o momento oportuno”. Calma é o cacete, pô. É muito fácil falar ‘Daniel Silveira, cuida da tua vida. Não vou falar isso. Fui deputado por 28 anos. E lá dentro daquela Casa, com todos os possíveis defeitos, ali é a essência da democracia também”. Jair Bolsonaro.

Ditadura

Ontem, o Ministério da Defesa publicou uma nota oficial celebrando os 58 anos da instalação do regime ditatorial instalado no Brasil em 1964.

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Hoje, Jair, que em 2018 ganhou a eleição defendendo o golpe e exaltando seus presidentes, voltou à falar no tema.

“Na ditadura todos aqui tinham direito, deputado Daniel Silveira, de ir e vir, e sair do Brasil, trabalhar, constituir família, de estudar”.

Porém, Segundo a Comissão Nacional da Verdade, 434 brasileiros foram mortos ou “desaparecidos” durante a ditadura militar entre os anos de 1964 e 1985.

Mais de 8,3 mil indígenas perderam a vida naquele período em razão de ações praticadas ou toleradas pelo regime então em vigor. Estima-se que 50 mil pessoas tenham sido presas por razões políticas, tendo cerca de 20 mil delas submetidas a torturas.

Apesar disso, o presidente voltou a dizer que Castello Branco chegou à Presidência, em abril de 1964, pelo Congresso, sugerindo que a eleição ocorreu dentro da normalidade.

Bolsonaro já defendeu esta versão em outras ocasiões, mas ignora que antes do pleito indireto houve um golpe e diversos parlamentares foram cassados. O militar ainda era candidato único ao cargo.

Ministros

O agora ex-ministro do Trabalho, Onyx Lorenzoni, fez o discurso mais político e citou nominalmente o petista, primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto.

João Roma, por sua vez, criticou o programa Fome Zero, e disse que o governo do ex-presidente Lula falhou em combater a fome. “Não vamos permitir que nada nem ninguém divida nossa pátria”, afirmou.

Em meio a elogios a Bolsonaro, o ex-ministro Gilson Machado disse que ele “veio a Brasília não para andar de camburão, mas para trabalhar para todos nós”.

Braga Netto deixará a Defesa com a expectativa de ser vice na chapa do presidente. Ainda que não tenha sido anunciado oficialmente, o chefe do Executivo já sinalizou em diversos momentos sua predileção pelo general.

Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), João Roma (Cidadania) e Onyx Lorenzoni (Trabalho) deixam seus cargos para concorrer a governos estaduais: São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul, respectivamente.

Já Tereza Cristina (Agricultura), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), Gilson Machado (Turismo) e Flávia Arruda (Secretaria de Governo) querem conquistar para vaga no Senado por seus estados – Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Distrito Federal.

Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) diz não saber ainda nem o Estado, nem o cargo que disputará. O astronauta Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) quer se eleger deputado federal por São Paulo.

A grande maioria dos ministros se filiou ao PL de Valdemar Costa Neto, para acompanhar Bolsonaro. Provável vice de Bolsonaro, Braga Netto está filiado ao PL. Contudo, há ainda conversas sobre eventual filiação a outros partidos, em especial o PP de Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil.

O prazo de desincompatibilização é 2 de abril. Os ministros que saíram do governo para disputar as eleições são:

  • Braga Netto (Defesa): cotado para ser vice de Bolsonaro
  • Tarcísio Freitas (Infraestrutura): pré-candidato ao governo de São Paulo
  • João Roma (Cidadania): pré-candidato ao governo da Bahia
  • Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos): pré-candidata ao Senado ou à Câmara
  • Marcos Pontes (Ciência e Tecnolgia): pré-candidato a deputado federal por São Paulo
  • Onyx Lorenzoni (Trabalho): pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul
  • Flávia Arruda (Secretaria de Governo): pré-candidata ao Senado no Distrito Federal
  • Tereza Cristina (Agricultura): pré-candidata ao Senado no Mato Grosso do Sul
  • Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional): pré-candidato ao Senado no Rio Grande do Norte
  • Gilson Machado (Turismo): pré-candidato ao Senado em Pernambuco