28 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Áudios entre ex-ministro e Bolsonaro mostram que Bebiano não mentiu

Conversas no Whatsapp mostram que Bebianno realmente falou, três vezes, com o presidente, ao contrário da acusação de Carlos Bolsonaro

A revista Veja teve acesso aos fatídicos áudios entre o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, e o presidente Jair Bolsonaro.

Então presidente do PSL durante as eleições, o nome de Bebianno virou peça central nas denúncias de candidatas laranjas do partido de Bolsonaro, mas ele minimizou o caso, falando que já havia falado “três vezes com o presidente” e que “não havia crise”.

Prontamente, Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro e filho do presidente, foi ao twitter e disse que o então ministro havia mentido, soltando ainda o áudio do presidente, que estaria se recusando a falar com Bebianno. Que passou por mentiroso.

Dias de fritura e uma longa demora sobre sua demissão ou não terminaram apenas nesta segunda-feira, com sua demissão anunciada. Mas, como prometido, Bebianno, então aliado de Bolsonaro, prometeu e cumpriu que cairá soltando golpes. E o primeiro deles foi o vazamento de áudios provando que quem mentiu foram os Bolsonaro, presidente e filho. Não ele.

Áudios

Houve uma intensa troca de mensagens escritas e de áudio, todas via WhatsApp, entre os dois. Nelas, os dois trocam farpas, acusações e se desentendem sobre quase tudo. Desde o início da conversa, o estado de ânimo de cada um é diferente: Bolsonaro mostra-se irritado e impaciente, enquanto Bebianno tenta pacificar as coisas.

Os áudios a que VEJA teve acesso provam que, se alguém mentiu no episódio, foram o presidente e o filho. Bebianno, como se pode constatar nas gravações a seguir, falou com o presidente através de mensagens escritas e pelo menos treze mensagens de áudio.

Globo é inimiga: na terça-feira (12), o presidente Bolsonaro encaminhou a Bebianno uma mensagem contendo a agenda do ministro. Nela, constava que Bebianno receberia na terça-feira, às 16h, o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo.

Bolsonaro: “Gustavo, o que eu acho desse cara da Globo dentro do Palácio do Planalto: eu não quero ele aí dentro. Qual a mensagem que vai dar para as outras emissoras? Que nós estamos se aproximando da Globo. Então não dá para ter esse tipo de relacionamento. Agora… Inimigo passivo, sim. Agora… Trazer o inimigo para dentro de casa é outra história. Pô, cê tem que ter essa visão, pelo amor de Deus, cara. Fica complicado a gente ter um relacionamento legal dessa forma porque cê tá trazendo o maior cara que me ferrou – antes, durante, agora e após a campanha – para dentro de casa. Me desculpa. Como presidente da República: cancela, não quero esse cara aí dentro, ponto final. Um abraço aí.”

Ministros chateados: em outra troca de mensagens, Bebianno envia ao presidente uma nota publicado pelo site O Antagonista, em que ele e mais dois ministros, Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos, viajariam para o Pará:

Bolsonaro: “Gustavo, uma pergunta: “Jair Bolsonaro decidiu enviar para a Amazônia”? Não tô entendendo. Quem tá patrocinando essa ida para a Amazônia? Quem tá sendo o cabeça dessa viagem à Amazônia? Um abraço aí, Gustavo, até mais.”

O presidente resolve cancelar a viagem:

Bolsonaro: “Ô, Bebianno. Essa missão não vai ser realizada. Conversei com o Ricardo Salles. Ele tava chateado que tinha muita coisa para fazer e está entendendo como missão minha. Conversei com a Damares. A mesma coisa. Agora: eu não quero que vocês viajem porque… Vocês criam a expectativa de uma obra. Daí vai ficar o povo todo me cobrando. Isso pode ser feito quando nós acharmos que vai ter recurso, o orçamento é nosso, vai ser aprovado etc. Então essa viagem não se realizará, tá OK? Um abraço aí, Gustavo!”

Você não falou comigo: Bolsonaro diz que Carlos não está “incitando a saída” de Bebianno, apesar deles terem de fato falado três vezes:

Bolsonaro: “O caso incitando a saída é mais uma mentira. Você conhece muito bem a imprensa, melhor do que eu. Agora: você não falou comigo nenhuma vez no dia de ontem. Ele esteve comigo 24 horas por dia. Então não está mentindo, nada, nem está perseguindo ninguém.”

Bebianno: “Há várias formas de se falar. Nós trocamos mensagens ontem três vezes ao longo do dia, capitão. Falamos da questão do institucional do Globo. Falamos da questão da viagem. Falamos por escrito, capitão. Qual a relevância disso, capitão? Capitão, as coisas precisam ser analisadas de outra forma. Tira isso do lado pessoal. Ele não pode atacar um ministro dessa forma. Nem a mim nem a ninguém, capitão. Isso está errado. Por que esse ódio? Qual a relevância disso? Vir a público me chamar de mentiroso? Eu só fiz o bem, capitão. Eu só fiz o bem até aqui. Eu só estive do seu lado, você sabe disso. Será que você vai permitir que o senhor seja agredido dessa forma? Isso não está certo, não, capitão. Desculpe.”

O então ministro não obteve resposta:

Bebianno: “Eu só prego a paz, o tempo inteiro. O tempo inteiro eu peço para a gente parar de bater nas pessoas. O tempo inteiro eu tento estabelecer uma boa relação com todo mundo. Minha relação é maravilhosa com todos os generais. O senhor se lembra que, no início, eu não poderia participar das reuniões de quarta-feira, porque os generais teriam restrições contra mim? Eu não entendia que restrições eram aquelas, se eles nem me conheciam. O senhor hoje pergunte para eles qual o conceito que eles têm a meu respeito, sabe, capitão? Eu sou uma pessoa limpa, correta. Infelizmente não sou eu que faço esse rebuliço, que crio essa crise. Eu não falo nada em público. Muito menos agrido ninguém em público, sabe, capitão? Então quando eu recebo esse tipo de coisa, depois de um post desse, é realmente muito desagradável. Inverta. Imagine se eu chamasse alguém de mentiroso em público. Eu não sou mentiroso. Ontem eu falei com o senhor três vezes, sim. Falamos pelo WhatsApp. O que é que tem demais? Não falamos nada demais. A relevância disso… Tanto assunto grave para a gente tratar. Tantos problemas. Eu tento proteger o senhor o tempo inteiro. Por esse tipo de ataque? Por que esse ódio? O que é que eu fiz de errado, meu Deus?”

O presidente corta o assunto:

Bolsonaro: “Ô, Gustavo, usar da… Que usou do Whatsapp para falar três vezes comigo, aí é demais da tua parte, aí é demais, e eu não vou mais responder a você. Outra coisa, eu sei que você manda lá no Antagonista, a nota (sobre Bolsonaro não atender Bebianno) foi pregada lá. Dias antes, você pregou uma nota que tentou falar comigo e não conseguiu no domingo. Eu sabia qual era a intenção, era exatamente dizer que conversou comigo e que está tudo muito bem, então faz o favor, ou você restabelece a verdade ou não tem conversa a partir daqui pra frente. Querer empurrar essa batata quente desse dinheiro lá pra candidata em Pernambuco pro meu colo, aí não vai dar certo. Aí é desonestidade e falta de caráter. Agora, todas as notas pregadas nesse sentido foram nesse sentido exatamente, então a Polícia Federal vai entrar no circuito, já entrou no circuito, pra apurar a verdade. Tudo bem, vamos ver daí… Quem deve paga, tá certo? Eu sei que você é dessa linha minha aí. Um abraço.”

O presidente acusa o ministro:

Bolsonaro: “Bebianno, olha como você entra em contradição. Que seja a Folha. Se foi uma tentativa tua pra mim e eu não atendi… Eu não liguei pra Folha, eu não ligo pra imprensa nenhuma. Quem ligou foi você, quem vazou foi você. Dá pra você entender o caminho que você está indo? E você tem que fazer uma reflexão para voltar à normalidade. Deu pra entender? Vou repetir: se você tentou falar comigo, um pra um, se alguém vazou pra Folha, não fui eu, só pode ser você. Tá ok?”

O então ministro se defende:

Bebianno: “Não, capitão, não é isso, não. Eu não tentei ligar pro senhor, eu não falei, não vazei nada pra ninguém. Eu nem tentei ligar pro senhor. O senhor mandou um recado que era pra eu não ir ao hospital. Não fui e não liguei pro senhor nenhuma vez. Deixei o senhor em paz. É… Se eu tentei ligar uma ou duas vezes, também não me lembro pelo motivo que foi, é… Não é isso, não, capitão, tá? Eu não vazei nada pra lugar nenhum, muito menos pra Folha, com quem eu praticamente não falo. Abraço, capitão.”

Bebianno então acusa Bolsonaro de estar envenenando o assunto:

Bebianno: “Em relação a isso, capitão, também acho que a coisa está… Não está clara. A minha tarefa como presidente interino nacional foi cuidar da sua campanha. A prestação de contas que me competia foi aprovada com louvor, é… Agora, cada Estado fez a sua chapa. Em nenhum partido, capitão, a nacional é responsável pelas chapas estaduais. O senhor sabe disso melhor do que eu. E, no nosso caso, quando eu assumi o PSL, houve uma grande dificuldade na escolha dos presidentes de cada Estado, porque nós não sabíamos quem era quem. É… Cada chapa foi montada pela sua estadual. No caso de Pernambuco, pelo Bivar, logicamente. Se o Bivar escolheu candidata laranja, é um problema dele, político. E é um problema legal dela explicar o que ela fez com o dinheiro. Da minha parte, eu só repassei o dinheiro que me foi solicitado por escrito. Eu tenho tudo registrado por escrito. Então é ótimo que a Polícia Federal esteja, é ótimo que investigue, é ótimo que apure, é ótimo que puna os responsáveis. Eu não tenho nada a ver com isso. É… Depois a gente conversa pessoalmente, capitão, tá? Eu tô vendo que o senhor está bem envenenado. Mas tudo bem, a minha consciência está tranquila, o meu papel foi limpo, continua sendo. E tomara que a polícia chegue mesmo à constatação do que foi feito, mas eu não tenho nada a ver com isso. O Luciano Bivar que é responsável lá pela chapa dele. Abraço, capitão.”

E o resto, foi história.

No dia da demissão, houve um acordo entre as duas partes para que Bolsonaro exaltasse a honra de seu então amigo, em um vídeo, que deveria ser compartilhado pelo presidente em suas redes sociais. Mas como o vídeo (abaixo) foi enviado apenas pelo Whatsapp, e não no Facebook ou Twitter do presidente, Bebianno perdeu a paciência. E sendo um arquivo vivo, promete abrir o bico.

“Bolsonaro é louco”

Antes de sua saída oficial, Gustavo Bebianno, já falava com o ressentimento de quem está fora do governo Bolsonaro. Apesar de antes dizer ter carinho pelo presidente, ele não culpa mais Carlos, ou “pimpolho”, por toda a crise.

“O Jair é o problema. Ele usa o Carlos como instrumento. É assustador. Tenho vergonha de ter acreditado nele. É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil.” Gustavo Bebianno, ex-presidente do PSL e ainda ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

O ex-ministro, por sua vez, enxerga no vereador uma pedra no sapato do presidente, duvidando até mesmo de sua capacidade intelectual. O ministro pode guardar cartas na manga com o potencial de expor Carlos, inclusive com consequências para o pai.

Pessoas próximas dizem que ele não terá receio em fazer isso. O alvo não é o presidente, mas sim seu filho.

Em outro dos desabafos, Bebianno revelou sobre a grande mágoa de trabalhar na pré-campanha da eleição, ao lado do agora presidente Jair Blsonaro, do que ter ficado ao lado de seu pai, que estava morrendo.

“Meu pai disse que era para eu trabalhar pelo Brasil, fazer o bem. Eu deixei de estar com meu pai na morte dele para estar com o Jair”. Gustavo Bebianno.

Na tarde desta segunda, ele relatou ainda pelo menos dois amigos próximos que está recebendo ameaças por meio de seu número de WhatsApp. Elas teriam começado a ser feitas no domingo (17). Bebianno estuda denunciar o fato às autoridades, como a PGR (Procuradoria-Geral da República).

Desde que começou a crise envolvendo a permanência do ministro no cargo, o telefone dele foi espalhado em grupos de redes sociais. As ameaças, então, começaram a ser disparadas.

Um dos interlocutores de Bebianno diz acreditar que 99% das ameaças são “bravatas” de “bolsominions”, como são chamados os apoiadores mais radicais do presidente Jair Bolsonaro (PSL) nos meios de oposição.

Laranjas

Aliados do presidente lembravam que a demissão, em crise exposta nas redes sociais, fragilizaria a imagem do governo perante o Congresso e a opinião pública. E isso poderia colocar em risco uma das prioridades de sua gestão: a aprovação da reforma da Previdência, que será apresentada na semana que vem.

A gota d’água para Bolsonaro, que recebia recomendações para manter o aliado no governo, foi o vazamento de diálogos privados entre Bolsonaro e Bebianno, exclusivos da Presidência, ao site O Antagonista e à revista Veja.

Ele então fora chamado de mentiroso por Carlos Bolsonaro, filho mais velho, vereador no Rio de Janeiro e estrategista digital de Bolsonaro – embora ainda sem cargo oficial. No Twitter, Carlos postou no Twitter que Bebiano mentiu ao jornal O Globo ao dizer que conversara com Bolsonaro três vezes na véspera. O vereador chegou a divulgou um áudio do Presidente como prova.


Bolsonaro, que havia acabado de receber alta após 17 dia internado, resultado da reversão da colostomia, apoiou a decisão do filho e chegou a compartilhar suas mensagens. E em entrevista na Record, confirmou que não falou com o ministro.

E mais: determinou a abertura de inquérito da Polícia Federal sobre o esquema de candidaturas laranjas de seu partido e que, se Bebianno estivesse envolvido, “o destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens”, ou seja, deixar o governo.

Aliados de Bolsonaro querem que o filho Carlos reduza o tom de postagens nas redes sociais que possam comprometer o governo. Desde quarta, ele tem publicado apenas mensagens de ações governamentais e, inclusive, um elogio a Mourão, a quem já dirigiu diversas críticas recentemente.

A avaliação é a de que Carlos, que tem um temperamento considerado difícil, pode até, temporariamente, reduzir o tom das críticas a integrantes do governo nas redes sociais, mas que é impossível afastá-lo definitivamente.

Laranjas

A primeira denúncia sobre os laranjas do PSL mostrou que o atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, patrocinou um esquema de candidaturas de fachada em Minas que também receberam recursos volumosos do fundo eleitoral do PSL nacional e que não tiveram nem 2.000 votos, juntas.

Parte do gasto que elas declararam foi para empresas com ligação com o gabinete de Álvaro Antônio na Câmara dos Deputados. Após essa revelação, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, afirmou que esse caso deveria ser investigado. O ministro do Turismo balançou, mas não caiu.

O grupo do atual presidente do PSL, Luciano Bivar (PE), recém-eleito segundo vice-presidente da Câmara dos Deputados, criou uma candidata laranja em Pernambuco que recebeu do partido R$ 400 mil de dinheiro público na eleição de 2018. O dinheiro foi liberado por Bebianno.

Maria de Lourdes Paixão, 68, que oficialmente concorreu a deputada federal e teve apenas 274 votos, foi a terceira maior beneficia.

Já nesta semana, a Folha revelou ainda que Bebianno liberou R$ 250 mil de verba pública para a campanha de uma ex-assessora, que repassou parte do dinheiro para uma gráfica registrada em endereço de fachada —sem maquinário para impressões em massa. O ministro nega qualquer irregularidade.

E depois da troca de áudios no Twitter, e uma ajuda inadvertida de Carlos Bolsonaro, desafeto de Bebiano, o então ministro e ex-presidente do partido do presidente, caiu. E atirando, como visto em sua postagem no Instagram, com um texto sobre “lealdade”.