15 de agosto de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Mentor de Bolsonaro, Olavo de Carvalho entra em guerra com o MEC

Filósofo recomendou que seguidores abandonem os cargos no governo; Insistência do ministro em pautas ideológicas tem preocupado alas do governo

O escritor e guro do presidente Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, entrou em guerra com o governo. E após uma série de desabafos nas redes sociais, o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, iniciou uma série de mudanças na pasta, visando todos os pupilos de Carvalho.

As movimentações pegaram de surpresa até alguns auxiliares próximos do ministro Vélez. O MEC não quis se pronunciar sobre as mudanças. Segundo um auxiliar próximo ao ministro, as mudanças de cargo teriam motivação apenas administrativa

Apesar de não estar incluído diretamente no Governo, Carvalho é uma figura importante, considerado guru ideológico de Bolsonaro e espécie de mentor da nova direita no Brasil. Foi ele quem sugeriu ao governo os nomes dos ministros Vélez e Ernesto de Araújo, das Relações Exteriores. E agora parece fazer o caminho contrário:

Incluindo nas mudanças, está o o posto o chefe de gabinete do MEC, Tiago Tondinelli, O advogado é um dos ex-alunos de Olavo que ocupam cargos-chave na pasta e caiu após Olavo argumentar que há muitos inimigos entre os que cercam Bolsonaro, o que foi entendido como uma alusão ao vice-presidente, general Hamilton Mourão.

“Imaginem então o general, que, emergindo da tediosa e austera secura da vida militar, se vê de repente cercado de luzes, câmeras e gostosas repórteres. Cai de joelhos”. Olavo de Carvalho, guru ideológico de Bolsonaro.

O vice-presidente respondeu Olavo com beijinhos. Já o general Augusto Heleno, chefe do gabinete de Segurança Institucional minimizou uma debandada nos ministérios:

“Eu não sou aluno dele. Sei lá, se a gente acha que isso vai ferir a base do presidente da República eleito com 50 e poucos milhões de votos.” General Augusto Heleno, ministro chefe do gabinete de Segurança Institucional.

Expurgo

Silvio Grimaldo de Camargo, nomeado em fevereiro assessor especial do ministro do MEC, escreveu no Facebook que o MEC promove um “expurgo” de ex-alunos de Olavo.

“O expurgo de alunos do Olavo de Carvalho do MEC é a maior traição dentro do governo Bolsonaro que se viu até agora. Nem as trairagens do Mourão ou do ex-ministro Gustavo Bebianno chegaram a esse nível”. Silvio Grimaldo, aluno de Carvalho.

Segundo Camargo, ele não foi expulso do MEC, mas avisado que seria transferido para um cargo sem expressão na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), onde iria “enxugar gelo” e fazer “guerra cultural”:

Grimaldo segue com uma série de postagens agressivas em suas redes sociais e sua exoneração ainda não foi confirmada.

Disputa ideológica

A repercussão negativa do episódio da carta sobre o Hino Nacional enviada a escolas pelo ministro Ricardo Vélez Rodríguez fez com que nomes ligados a Carvalho fossem afastados da pasta.

O MEC é palco de disputa entre três grupos: militares de alto escalão no governo, discípulos de Olavo (incluindo o próprio ministro) e técnicos do Centro Paula Souza, a autarquia paulista que cuida das escolas técnicas.

A insistência do ministro em pautas ideológicas tem preocupado integrantes das alas do Paula Souza e militares, também representado por egressos do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). O ex-reitor do ITA, Anderson Ribeiro Correia, é o presidente da Capes

Após idas e vindas, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) anunciou em novembro que o futuro ministro da Educação seria o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, filósofo e professor emérito da Escola de Comando e estado-maior do Exército.

A nomeação aconteceu após vazar o nome de Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna, como o mais cotado para o cargo. Mas a bancada religiosa não gostou. Pesava contra Ramos o fato dele, em nenhum momento, ter dado declarações a favor do projeto da Escola sem Partido ou contra discussões sobre gênero em sala de aula.

Temas em debate no Congresso Nacional contra o que seria uma doutrinação partidária por professores, serviram para alavancar o nome de Bolsonaro no cenário nacional bem antes de sua pré-candidatura presidencial.

Com apoio dos evangélicos, o presidente eleito foi um dos líderes de movimento contra a discussão de gênero nas escolas. No governo Dilma Rousseff, ele denunciou a entrega para alunos do que, segundo ele, seria um kit em que se ensina a ser homossexual e de um livro sobre sexo para crianças.

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, já coleciona uma série de polêmicas em sua curta gestão. Ele já chegou ‘a dizer que a universidade não é para todos e defendeu incluir a disciplina educação moral e cívica no currículo do ensino fundamental “para os estudantes aprenderem o que é ser brasileiro e quais são os nossos heróis”.

Ele também já disse que o brasileiro viajando é um “canibal que rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”