29 de julho de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Michelle ser mencionada no celular de Dominguetti explica preocupação de Flavio Bolsonaro

Senador filho 01 do presidente pediu na CPI que só algumas mensagens do aparelho do “Cavalo de Troia” fossem analisadas

Durante o depoimento de Luiz Paulo Dominguetti, o PM endividado que se apresentou como representante da Davati Medical Supply e teria recebido oferta de propina de 1 dólar por vacina da Covaxin, seu celular foi apreendido. Para o desespero de Flavio Bolsonaro.

Passado pouco menos de uma semana, o conteúdo do aparelho pode fazer um estrago. O operador que sonhava com jaguar e mansão em Brasília deixou todos os passos registrados, citou nomes, há datas e valores.

E com o conteúdo sendo liberado a conta gotas, sangrando aos poucos, até mesmo Michelle Bolsonaro teria “entrado no circuito” da negociação de vacinas com o governo federal.

Em conversa registrada em 3 de março, Dominguetti e um interlocutor identificado como Rafael Compra Deskartpak falam sobre a operação, para que o grupo chegasse até Bolsonaro no Planalto.

A CPI já descobriu que o reverendo Amilton Gomes de Paulo atuou para aproximar os supostos vendedores de vacina do gabinete presidencial. Ele entrou na empreitada por ser próximo da família Bolsonaro.

Nas novas mensagens, Dominguetti comenta assustado sobre os avanços do reverendo. “Michele está no circuito agora. Junto ao reverendo. Misericórdia”, escreve.

O interlocutor se mostra incrédulo diante do nome da primeira-dama. “Quem é? Michele Bolsonaro?” Dominguetti retorna: “Esposa sim”.

Resumindo: o celular mencionou, no mínimo, o nome da primeira-dama no esquema de propinas e superfaturamento com vacinas contra Covid-19. Sabe-se lá quem mais está envolvido.

Por isso Flavio sugeriu que só um áudio em específico fosse analisado.

“Tem que analisar só o áudio de Miranda, não pode ver outras mensagens”. Flávio Bolsonaro.

Cavalo de Troia

O senador filho 01 do presidente, que não faz parte da comissão, comparece apenas em dias com depoentes que teriam informações bomba contra o presidente. Como o ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel ou o terceirizado que deveria ter mesmo muita “certeza” de ter recebido um link dropbox no dia 18 e não no dia 23.

Flávio Bolsonaro estava lá no dia do depoimento de Dominguetti. E assim como outros da tropa de choque, todos estavam estranhamento calmos. Diferente de outros dias, em que gritavam até ficarem vermelhos, perguntavam pelo consórcio nordestino ou falam em narrativas contra o pobre presidente. A coisa mudou quando o PM apresentou um áudio do deputado Luís Miranda em seu celular.

Durante o depoimento, a oposição já levantava suspeitas sobre as “intenções” do cabo da PM de Minas Gerais, que seria um infiltrado por governistas. Ou um “cavalo de Troia bolsonarista”, como fora apelidado nas redes. Ele estaria ali para desinformar. Para retirar a credibilidade de depoimentos anteriores. Como o do deputado Miranda.

Fico muito escancarado PM vendedor de vacina, na contramão do que vinha sendo o foco daquela reunião, revelar que Luis Miranda teria supostamente atuado na intermediação para compra de imunizantes.

“Com todo respeito, essa testemunha foi plantada aqui. Ela foi plantada, ela está em estado flagrancial do artigo 342. Tem que dar voz de prisão a esse depoente. Esse áudio se refere a que? Ele se refere a Walmart, a pequenos contratos, ele nunca fez contrato nenhum com o Ministério da Saúde, pelo amor de Deus”. Fabiano Contarato, senador.

Naquele exato momento, o próprio Miranda entrou na CPI, falou com o presidente Omar Aziz e o relator Renan Calheiros e foi embora. Renan questionou as intenções de Dominguetti. “O depoente traz um áudio com mazelas que poderiam envolver Luis Miranda, Em nome do quê? A CPI não vai aceitar este tipo de coisa”, disse. A tropa de choque então começou a gritar.

“Lá na minha região, chapéu de otário é marreta e jabuti não sobe em árvore. O senhor está sob juramento. Não venha achar que aqui todo mundo é otário. Nem patetas. Veja bem qual é seu papel aqui. Do nada surge um áudio do deputado Luis Miranda. Tá certo? Chapéu de otário é marreta, irmão”. Omar Aziz.

O relator também questionou as intenções de Dominguetti. “O depoente traz um áudio com mazelas que poderiam envolver Luis Miranda, Em nome do quê? A CPI não vai aceitar este tipo de coisa”, disse.

Nervoso após a tentativa de ser feito de palhaço, Aziz mandou apreender o celular de Dominguetti. Não passou muito tempo até o áudio de Miranda, que teria sido enviado pessoalmente após o depoimento do deputado na CPI, ser na verdade um encaminhamento de um terceiro. De meses atrás. Sobre um assunto não relacionado a vacinas. Tudo muito esquisito. Tudo muito plantado.

Naquele momento, em massa, internautas acusaavm o depoente de ter sido “plantado” pelos bolsonaristas na CPI para defender o governo e o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) é um deles. E para um governo incompetente, uma ação incompetente: aparentemente, tentaram sabotar a CPI se s deram muito mal. O pior? Um celular repleto de provas foi apreendido pela perícia.

Logo, é completamente compreensível a preocupação de Flavio Bolsonaro com a apreensão do celular.

“Tem que analisar só o áudio de Miranda, não pode ver outras mensagens”. Flávio Bolsonaro.

O problema, 01, é que outras mensagens foram vistas. E todas relacionadas ao caso de corrupção. Uma delas, pelo menos, envolvendo o nome da primeira-dama. Fala-se nos corredores que o que saiu até agora do celular do PM Luiz Paulo Dominguetti não representa 10% do conteúdo sob poder da CPI. Ou seja: a missão do cavalo de Troia falhou. E muito.