28 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Promessas e omissões: Em live no Facebook, Bolsonaro segue em ritmo de campanha

Ao término da live, o presidente encerrou o vídeo falando seu slogan eleitoral: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”

Na noite desta quinta-feira (7), em sua primeira live no Facebook depois de assumir a presidência, Jair Bolsonaro (PSL) esteve ao lado do porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, e o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). E em 21 minutos foram muitas promessas, como se ainda estivesse em campanha, factoides e, como sempre, desvios de foco.

Durante toda a transmissão, os três falaram sobre vários temas, mas nada sobre as candidaturas-laranjas do PSL ou ao vídeo com imagens obscenas que o próprio presidente reproduziu em sua conta no Twitter.

O presidente ao menos comentou sobre sua declaração polêmica, de que militares só asseguram democracia quando quiserem; reforma da Previdência; gastos com cartão corporativo; lombadas eletrônicas; mudança da caderneta (cartilha) de vacinação infantil; e até a concorrência de bananas vindas do Equador com a das produzidas no Vale do Ribeira.

E como era véspera do Dia Internacional da Mulher, ainda teve tempo para uma piada inapropriada, quando perguntou aos dois integrantes do governo se eles estão preparados para fazer uma prova, após o fim da obrigatoriedade de cursos de diversidade e prevenção ao assédio moral e sexual em edital do Banco do Brasil.

Democracia e militares

Logo no início da transmissão, o presidente disse que “para variar, sua fala gerou polêmica. “As Forças Armadas no Brasil sempre estiveram ao lado do Brasil e da liberdade”. Mais cedo, ele falou em evento a militares que “democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”.

Heleno tomou a palavra e afirmou que as Forças Armadas são um “pilar da democracia e da liberdade”.

“Essa não é uma fala polêmica, as suas palavras foram de improviso e foram colocadas exatamente para aqueles que amam sua pátria, e que vivem diariamente a manutenção da democracia e da liberdade”. General Augusto Heleno, ministro-chefe do GSI.

Cartões corporativos

Augusto Heleno também tomou a palavra quando foi justificar o aumento de 16% nos gastos da Presidência da República com cartão corporativo nos primeiros meses de 2019. A despesa já atingiu R$ 1,1 milhão, gastos do próprio presidente e sua esposa, Michele Bolsonaro.

O motivo do aumento? Se antes apenas o presidente usava o cartão, naquele mês usaram o vice, General Hamilton Mourão e o ex-presidente Michel Temer (MDB).

Lombadas eletrônicas

No que mais pareceu ser uma promessa de campanha, depois de dizer que o objetivo das lombadas eletrônicas “não é diminuir acidentes” e sim multar os motoristas, o presidente afirmou que “não haverá mais lombadas eletrônicas e as que já existem não serão renovadas”. Não houve nenhum tipo de comentário sobre seguir as leis de trânsito ou os limites de velocidade.

Cursos contra assédios

Bolsonaro não parecia contente com cursos de diversidade e prevenção ao assédio moral e sexual de quem fazia a prova de concurso público para assistente técnico do Banco do Brasil. Ele disse que isso não deverá acontecer mais.

“Isso é questão de educação, ninguém precisa fazer curso nesse sentido. […] Nos futuros editais, não teremos mais essa obrigatoriedade”. Jair Bolsonaro.

Claro, nenhum dos dois ao seu lado perguntou sobre a necessidade de curso ou falta de educação do presidente, quando este confrontou Maria do Rosário, quando deputado, apontando o dedo em seu rosto e afirmando que ela não “merecia ser estuprada” por não fazer o tipo dele.

Presidente se enrolou com caderneta

Outra promessa, entenda, não de campanha, foi feita sobre uma nova caderneta de vacinação, exigindo uma mudança após assistir ao vídeo de uma mulher mostrando figuras que “não caem bem para meninos e meninas”.

“Eu me sensibilizei com as críticas da senhora. A cartilha é de 2012, da senhora Dilma Rousseff, e tem informações boas aqui sim, mas o final aqui fica complicado. A solução encontrada foi fazer uma cartilha mais barata, com menos páginas, sem essas figuras e recolher as outras”. Jair Bolsonaro.

Confuso, o presidente não percebeu que aquilo era material de vacinação infantil de 2012, mas sim de 2010, voltada para saúde do adolescente. As imagens mostradas pelo presidente são de uma página que ensina aos garotos e garotas a forma correta de usar uma camisinha masculina.

Educacionais e necessárias, ao contrário do vídeo nojento postado em seu twitter, com um homem manipulando o ânus e urinando em outro. É a história do kit gay outra vez.

Bananas

De maneira surpreendente, Bolsonaro demonstrou preocupação com o valor de importação das bananas do Equador, estas concorrentes no CEAGESP, em São Paulo, com o produto produzido no Vale do Ribeira. Ele afirmou que vai rever a questão com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Slogan de campanha

Ao término da live, o presidente encerrou o vídeo falando seu slogan eleitoral: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Isto vai contra uma determinação que ele mesmo emitiu no começo do ano para a comunicação de atos do governo.

O objetivo é não ferir o artigo 37 da Constituição, que prevê que a administração pública deve obedecer ao princípio da impessoalidade, sem atender a interesses pessoais. Mas ele parece não perceber isso: Bolsonaro segue em ritmo de campanha.