24 de janeiro de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Paypal cancelar cupons de R$ 50 mostra o quando brasileiro e corrupção andam lado a lado

Oferta era limitada a um cupom por usuário, mas isso não impediu muitos de clonarem contas ou fazerem gambiarras para ganhar mais

Na tarde de ontem (15), o PayPal, sistema de carteira digital, ofereceu um cupom de R$ 50 para todos os seus usuários comprarem praticamente o que quiser.

Bastava um acessar esse link promocional do PayPal e fazer suas compras em uma variedade de opções, podendo usufruir de serviços do Uber, jogos eletrônicos ou sites nacionais que aceitassem Paypal, como a Livraria Cultura e Ingresso.com.

Pois bem: a promoção que deveria valer até 31 de dezembro não durou nem três horas e o Paypal não só eliminou o link da promoção como retirou o cupom de R$ 50 dos perfis que ainda não tinham sido gastos.

Aparentemente, no meio do caminho tinha um brasileiro.

O PayPal é uma gigante com valor de mercado de mais de U$ 200 bilhões de dólares. Estes R$ 50 para cada usuário brasileiro era o que se chamava de “dinheiro de pinga” perto do que eles tinham. Mas quando oferecem a mão e querem o braço, especialmente no Brasil, nem mesmo o PayPal estava pronto para o jeitinho brasileiro.

As contas são limitadas e precisam registradas com um número de celular e um CPF funcional. Com isso, apenas uma cupom por conta poderia ser possível.

No máximo, usuários poderiam conseguir algo com parentes e amigos que ainda não usufruíam do serviço, que neste ano teve o Pix como grande concorrente em território nacional.

Mas nenhum concorrente para um negócio sério é maior que o brasileiro: houve relatos de abuso. O dinheiro, que poderia ser gasto apenas de forma virtual, sofreu gambiarras.

Muitos conseguiram fazer transferência do cupom via Pix para suas contas bancárias. O que não era permitido. Outros criaram contas fantasmas e acumularam para cada uma delas estes valores de R$ 50. A movimentação foi tamanha que sites que aceitavam serviços PayPal caíram. E a plataforma resolveu suspender a promoção.

Usuários que resgataram o cupom e quiseram esperar para gastar depois ficaram a ver navios. Até mesmo o cupom já validado foi retirado. Afinal, o PayPal não conseguiria saber, dentre os resgates, quais destes eram pedidos fantasmas. O que fazia parte de suas regras.

Muitos clientes começaram a questionar se a empresa poderia dar o cupom e depois retirá-lo. Entretanto, o regulamento da oferta abre margem para que o PayPal possa modificar toda a promoção a qualquer momento.

 “O PayPal reserva-se o direito de retirar a oferta e/ou alterar qualquer parte da oferta ou os Termos e Condições da oferta a qualquer momento, sem aviso prévio. As decisões do PayPal sobre todos os assuntos relacionados à oferta serão finais e vinculativas”. Trecho do regulamento.

Dessa forma, a retirada do cupom antes do dia 31 de dezembro está dentro das regras estabelecidas pela empresa para a promoção. O PayPal ainda não se pronunciou de forma oficial sobre o assunto, mas de uma coisa é certa: se tiver dinheiro no meio sendo oferecido para brasileiro, pode ter certeza de que ele dará um jeitinho para se sobressair e sair ganhando mais ainda.

O jeitinho brasileiro, a Lei de Gérson, é um princípio em que determinada pessoa ou empresa obtém vantagens de forma indiscriminada, sem se importar com questões éticas ou morais.

A “Lei de Gérson” acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter midiático nacional, que passa a ser interpretado como caráter da população, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito a regras de convívio para a obtenção de vantagens.

Não é a toa que elegemos tantos corruptos e fechamos os olhos para tudo o que acontece, seja no serviço público e privado. De uma forma geral, infelizmente, somos uma nação fadada ao “jeitinho brasileiro”. Somos um país construído e conduzido pela corrupção. Que nem mesmo a PayPal conseguiu tolera.