27 de outubro de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro manda, Queiroga suspende vacinação em adolescentes e máscaras são próximo alvo

Ministro da Saúde esteve em live com presidente e pediu para ele se vacinar, que respondeu tomar ivermectina e nunca ter errado sobre cloroquina

Se o presidente Jair Bolsonaro tinha saudades de um ministro da Saúde capacho para chamar de seu, o médico Marcelo Queiroga dá indícios de que vai cumprir direitinho a ausência do general e incompetente Eduardo Pazuello. E um dos pré-requisitos ele já preenche muito bem: sabe que quando Bolsonaro manda, ele obedece.

A repercussão nesta quinta-feira (16) da recomendação da suspensão de vacinas contra Covid-19 em adolescentes no Brasil foi longe da ideal. O recuo da pasta trouxe mais um nível de incerteza e insegurança, nebulada por fake news, e é reforço para os pais negacionistas que já enfrentavam resistência para imunizar seus filhos adolescentes. Até mesmo os dispostos a vacinarem devem ter ficado confusos.

Sem ajudar e ainda atrapalhando o Brasil, Bolsonaro mandou Queiroga suspender a vacinação em adolescentes. Contrariando a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que manteve orientação de uso da Pfizer em adolescentes sem comorbidades, apesar da nota do Ministério da Saúde – que poderia muito bem ter sido assinada por Bolsonaro. Confira aqui a resolução.

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Ainda ontem a Agência confirmou que investiga o caso da morte de uma adolescente de 16 anos após aplicação da vacina contra Covid-19 da Pfizer, mas com a ressalva de que não existem “evidências que subsidiem ou demandem alterações nas condições aprovadas para a vacina”. Ou seja, manteve o uso do imunizante. Mas Bolsonaro está presidente do Brasil.

Foi o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores que pressionaram o ministro Queiroga a rever regras para vacinação de adolescentes. A decisão, feita às pressas e sem conhecimento dos técnicos do PNI (Programa Nacional de Imunizações), a decisão pegou de surpresa até mesmo gestores do SUS, diretores da Anvisa e secretários do ministro.

“O presidente me cobra todo dia essas questões de vacinação, sobretudo com essa questão dos adolescentes. O presidente é muito preocupado com o futuro do país. Hoje mesmo ele me ligou: ‘Queiroga, olha aí’. Sim senhor, presidente, pode ficar tranquilo que vamos olhar isso aqui com cuidado”. Marcelo Queiroga, ministro da Saúde.

Live com Bolsonaro

Além da entrega de Queiroga, seu aliados e integrantes do governo que acompanharam o recuo afirmam que Bolsonaro fez cobranças a partir de declarações nas redes sociais de supostas reações adversas das vacinas. O que foi confirmado pelo próprio presidente, na live que ele fez ontem com Queiroga, sendo claro em dizer que tem “uma opinião” sobre vacinação de jovens, e que Queiroga “segue ou não”.

“A minha conversa com Queiroga não é uma imposição. Levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, vejo e chega ao meu conhecimento. A OMS é contra a vacinação de 12 a 17 anos. A Anvisa é favorável a vacinação de todos os adolescentes com a Pfizer. É uma recomendação, você é obrigado a seguir a recomendação”? Jair Bolsonaro, presidente.

O presidente, claro, mente. Algo que é da natureza dele: a OMS não tem nada contra vacinar adolescentes. Diz apenas que é mais urgente vacinar pessoas mais velhas. Até mesmo Queiroga pediu ontem para o presidente se vacinar. “O senhor está bem, mas precisa se vacinar”, afirmou o ainda ministro que disse não saber se o presidente é “invacinável”.

Bolsonaro rebateu rindo, pois pra ele tudo é uma piada e voltou a criticar ao imunizante do Instituto Butantan. E depois de tanto tempo, ainda inventa de falar no tratamento precoce contra um vírus com remédio de verme.

“A gente toma vacina para quê? Para ter anticorpos. A minha taxa de anticorpos está lá em cima. Está em 991 [iGg]. Vou tomar a CoronaVac, que não vai chegar nessa efetividade? De vez em quando, tomo Invermectina, e estou com esse iGg. Não sou médico, mas não errei nenhuma. Falei com vários médicos, tudo o que eu falava tinha materialidade, mas é pancada o tempo todo. E não erramos nenhuma. Até a arritmia: eu falava que a hidroxicloroquina não causava arritmia e a Sociedade Europeia de Cardiologia disse que não causava arritmia”. Jair Bolsonaro.

Apenas reforçando: absolutamente todas as coisas o que ele falou, entre desinformações e afirmações sem fundamento, são completamente mentirosas.

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Máscaras

As máscaras são o próximo alvo do presidente. Achando ser coisa de viado, Bolsonaro acredita que o equipamento de proteção se tornou desnecessário.

Não importa já ter errado sobre gravidade da pandemia, distanciamento social, imunidade de rebanho natural, tratamento precoce, necessidade de vacinação, chegada de novas ondas e agora o enfrentamento contra variantes: Bolsonaro quer errar mais uma. E vai ter Queiroga como cúmplice nisso.

Na mesma live, o presidente e o ministro sinalizaram uma possível queda da obrigação do uso de máscaras no Brasil. Bolsonaro questionou Queiroga sobre a liberdade do uso da proteção contra a Covid-19. E como um manda e o outro obedece, o médico cedeu:

“Fui à Itália, representando o Brasil no encontro do G-20, estava todo mundo sem máscara na rua. Fiz uma audiência com o diretor-geral da OMS em ambiente aberto e o Tedros disse: ‘Ministro, vamos tirar a máscara porque aqui não precisa’. Quem quiser, usa. Mania de querer criar lei para tudo. Daqui a pouco vai ter lei para só entrar aluno vacinado na escola”. Marcelo Queiroga, ministro da Saúde.

Curiosamente, a mesma Itália fará com que seu “passe verde” da Covid-19 seja obrigatório para trabalhadores dos setores público e privado. Com o anúncio desta quarta-feira, a Itália torna-se o primeiro país europeu a fazê-lo enquanto tenta aumentar as taxas de vacinação e erradicar as infecções.

Não é a primeira vez que Queiroga se posiciona sobre o fim da obrigatoriedade do uso de máscara no Brasil. O ministro também tem feito críticas ao “passaporte vacinal” adotado por algumas capitais, como o Rio de Janeiro, que exige a comprovação em academias e atrações turísticas.

E enquanto um manda por causa de opiniões e o outro obedece pelo apego ao cargo, já atravessamos anos a fio de uma pandemia que parece estar longe do fim. Com vacinação ainda segue colocada em questionamento e até máscaras com dias chegados, apertem os cintos para a iminiente 3ª onda, potencializada pela Delta.