4 de dezembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Bolsonaro mentiu em live quando disse que mãe recebeu vacina de Oxford

Presidente acusou enfermeiro de ir na casa de sua mãe para alterar cartão de vacinação, mas lote e data da segunda dose batem com Coronavac

Em sua live semanal na quinta-feira passada (18), o presidente Jair Bolsonaro tentou desmentir uma notícia do R7, que afirmava que a mãe dele, Olinda Bolsonaro, recebeu o imunizante Coronavac ao ser vacinada contra a covid-19, em Eldorado.

Ênfase no “tentou” desmentir.

Segurando em mãos uma cópia A4 do cartão de vacinação de sua mãe, de 93 anos, o presidente afirmou que ela teria recebido na verdade uma dose da vacina de Oxford. O que não é verdade.

Olinda recebeu realmente uma dose da coronavac, a “vachina” que o presidente tanto ataca e é promovida por seu rival político, o governador de São Paulo, João Doria.

Antes de tudo, além de ser mais uma mentira na conta do presidente que prega a verdade biblicamente, não há nenhum problema na dona Olinda ter se vacinado – e não ter virado jacaré-femêa.

Leia mais: Bolsonaro conseguiu politizar pandemia e seguidores dizem que não vão se vacinar

Pelo contrário: apesar ter colocado no mundo um filho que é antivacina e critica “quem fica chorando em casa” os seguidores da cartilha contra o novo coronavírus nesta pandemia, é ótimo que ela tenha se vacinado.

Além do mais, não há distinção em receber uma vacina ou outra. Não importa sua origem, nem quem vem fazendo seu uso político ou não: se o insumo foi aprovado pela Anvisa, o importante é ser vacinado. É uma atitude criminosa jogar contra uma vacina que funciona durante uma pandemia.

O problema é que nada, absolutamente nada na vida do presidente, vem sendo feito de maneira clara e idônea. A bola da vez agora é o cartão de vacinação de sua mãe, objeto de desinformação após essa live:

O comprovante foi preenchido com o nome completo da mãe de Bolsonaro, a data em que foi administrada a primeira dose (12/02/2021), o lote da vacina (200278), fabricante (Oxford) e na coluna ao lado, a lápis, consta a data indicada para a segunda dose (05/03/2021).

Usando portanto as informações repassadas pelo próprio presidente, o conteúdo aqui em negrito não bate com uma vacina de Oxford porque:

  • O lote 200278 foi um dos dezesseis da CoronaVac que receberam autorização emergencial da Anvisa em 22 de janeiro;
  • Os lotes da vacina de Oxford distribuídos pela Fiocruz para o estado de São Paulo, segundo site do Ministério da Saúde, são o 4120Z004 e o 4120Z005.
  • Se o imunizante fosse o de Oxford, a segunda dose deveria ser ministrada entre dois e três meses depois – de 12 de abril em diante, já a recomendação para a CoronaVac é de que a segunda dose seja ministrada 21 dias depois, exatamente no dia 5 de março.
  • Nenhum morador de Eldorado recebeu a vacina de Oxford em 12 de fevereiro: as últimas 10 doses da vacina de Oxford foram aplicadas no município no dia 9 de fevereiro, três dias antes de dona Olinda ser vacinada.

Somando 1+1, é possível concluir que dona Olinda recebeu sim o imunizante Coronavac, e não o de Oxford. A não ser que alguém próximo da mãe do presidente tenha alterado o cartão de vacinação dela, se esquecendo de mudar lote e data de vacinação, em uma falsificação torta e conspiratória.

Claro, ainda há uma outra alternativa: alguém ter invadido a casa da mãe do presidente e alterar seu cartão de vacinação. O que foi exatamente o que Bolsonaro disse…

O presidente afirmou na live que, duas horas depois de aplicar a vacina em sua mãe, o enfermeiro “apavorado” retornou à casa dos Bolsonaro, rasgou o comprovante de vacinação que continha a palavra “Oxford” e trocou por outro, que indicava o “Butantan” como fabricante.

Ele chegou a ler ao vivo algumas informações que constam no segundo comprovante de vacinação, expondo o nome completo do enfermeiro e seu registro profissional, o mesmo do primeiro documento.

Ou seja: o presidente criou tanta intriga, ódio e desinformação sobre a Coronavac, que precisou se preocupar em “esclarecer” a vacinação da própria mãe para não sofrer uma derrota política.

Seu grau de desinformação sem limites chegou no ponto de haver uma conspiração com um enfermeiro indo bater na casa da mãe do presidente e rasgar o cartão de vacinação. Enquanto isso, quase 250 mil morreram por causa da covid-19 e já está faltando vacinas no Brasil.

Em tempo: nunca veremos o cartão e de vacinação do presidente, nem pra saber se ele se vacinou ou não, já que o Planalto pediu um sigilo de 100 anos em seu cartão de vacinação.