Sozinho em live, Bolsonaro mente sobre PIB, lockdown, vacinação e medicamentos

Acompanhado apenas de sua interprete de sinais, presidente não conseguiu se manter no discurso do pronunciamento de dois dias antes

Em sua live semanal, onde passou quase meia hora sem amarras de discursos escritos que só ingênuos acreditariam, o presidente Jair Bolsonaro estava sozinho.

Com apenas sua interprete de sinais ao lado, Bolsonaro não teve nenhum ministro ou um sanfoneiro cantando Ave Maria. Estava apenas ele, com suas ideias, distorções, factóides e mais mentiras enquanto disparava sandices sobre um Brasil de pandemia.

Sua live aconteceu cinco dias após um grupo de grandes empresários, a turma que importa a ele (a do dinheiro), praticamente culpar o governo federal pela crise.

Dois dias depois dele se pronunciar em rede nacional, pela primeira vez, de forma decente em um ano de pandemia (para ele, uma incoerência sem tamanho, afinal partiu do ‘mimimi’ para ‘solidariedade’).

Um dia depois de formar um comitê anticovid, se reunir com governadores após não conseguir na Justiça impedir decretos com toque de recolher, após receber de Arthur Lira uma ameaça de impeachment, que agora está no sinal amarelo.

Mas nada disso importou: enquanto nesse meio tempo partia para incoerência de seu discurso (ele quer o vírus correndo solto, afinal acha que é apenas uma gripezinha, algo que apenas maricas encarariam com frescura, afinal há ozônio no ânus e cloroquina via nebulização contra isso), ele era o de sempre, atacando a necessidade de distanciamento social e mentindo sobre o lockdown na Alemanha.

Confira a seguir a autópsia de trechos de mentiras de sua live:

Alemanha e lockdown

Na live, acusado pela óbvia mentira de horas atrás, mentiu novamente sobre Angela Merkel, afirmando que o lockdown não é a solução idel, por isso a primeira ministra alemã não o implementou nesta Páscoa.

“Ali ela fez um mea-culpa e falou que foi um erro. Quem falou foi ela, quem falou são os jornais”. Jair Bolsonaro.

O que aconteceu, na verdade, foi que Merkel admitiu foi que não havia tempo para, de maneira apropriada, aplicar uma medida tão em cima do tempo. Por isso seu pedido de desculpas. Algo que Bolsonaro nunca faria, pois insiste “nunca ter errado”.

PIB

Claro, sem esquecer a economia, Bolsonaro inventou dizer que, no Mundo todo, o Brasil teria tido apenas a quarta menor queda do PIB em 2020.

“O governo federal manteve viva a economia no ano passado e, mais ainda, fez com que o país, que assim como o mundo todo estava previsto ter um PIB negativo —com exceção da China, os demais países tiveram PIB negativo—, e o Brasil foi o quarto que menos decresceu. Então, invariavelmente, fruto de várias políticas do governo voltadas para o emprego”. Jair Bolsonaro.

Mentira. Com uma queda de 4,1%, a economia mundial ficou em 21º no ranking, atrás de de Lituânia (-0,9%), Nigéria (-1,9%), Estônia (-3%), Letônia (-3,6%), Noruega (-0,8%), Coreia do Sul (-1%), Israel (-2,2%) e Estados Unidos (-3,5%).

E além da China (+2%) , Taiwan (+3,1%) e Turquia (+1,6%) tiveram crescimento. Mesmo sem esses país, a economia brasileira é a 19º que menos encolheu. Independente de tudo, 4 é diferente de 19 ou 21. E não ajudou nada o Real ter sido a moeda que mais se desvalorizou no mundo.

Vacinas diárias

O mesmo homem, que durante os priores momentos da primeira onda, questionava a pressa por vacina ou mesmo demanda para a mesma (durante uma pandemia), batendo a porta na cara de laboratórios, minando a necessidade de imunização (para ele, pegar covid-19 é a melhor solução) e deixando o Brasil desesperadamente correndo atrás do mercado, claro, agora mente sobre a vacinação.

“O Brasil já aplica em média 500 mil vacinas diárias. Isso vai aumentar com certeza, falta uma melhor interlocução entre a ponta da linha, estados e municípios com o Ministério da Saúde para que cada vez mais seja corrigida a quantidade de pessoas que são vacinadas”. Jair Bolsonaro.

Não. É mentira. E quem conta tantas mentiras em um espaço tão curto de tempo pode, perfeitamente, ser taxado de mentiroso. Logo, ao contrário do que o mentiroso disse, durante os 67 dias de campanha de vacinação, entre 17 de janeiro e 25 de março, foram aplicados 18.590.208 imunizantes. A média é em torno de 277 mil vacinas aplicadas por dia. 500 mil não é 277 mil.

Seu novo ministro da Saúde mesmo, Marcelo Queiroga, chegou a dizer que vacinará 1 milhão de pessoas por dia. O problema é que se alcançar esse ritmo, o estoque de doses no Brasil deve acabar em 11 dias. E todo dia a pasta anunciou a redução de vacinas aplicadas.

Falta de insumos

Há muitos internados no Brasil. E não é só uma questão de espaço e colocar mais leitos. Além da falta de profissionais capacitados, há ainda uma logística grave: a falta de medicamentos. Em especial, o chamado “kit intubação”. Bolsonaro nega.

“Tomamos providências, fizemos contato com várias empresas, Eurofarma, União Química, para buscar o material, os insumos para fazer intubação”. Jair Bolsonaro.

Mas ao contrário do que ele disse, im relatório do CNS (Conselho Nacional de Saúde) aponta que, em agosto de 2020, o governo federal cancelou a compra de medicamentos necessários para a intubação de pacientes.

E correndo contra o tempo, há três dias atrás, o Ministério da Saúde negociou a entrega de 2,8 milhões de medicamentos utilizados no procedimento. E durante esta pandemia, de forma trágica, há relatos de que, sem sedativos, pacientes têm despertado durante a intubação.

Vacinação no mundo

Inflamando o discurso de Bolsonaristas, o presidente agora afirma que há problemas de vacinação na Itália e também no Japão como forma de alegar que não é somente o Brasil que enfrenta dificuldades com o calendário vacinal.

Entretanto, além de exagerar nos dados, o presidente trata do assunto como se fosse um time lanterna sem expressão, apontando erros de grandes equipes. E enquanto isso, mais pessoas vão morrendo. Mais de 300 mil e contanto.

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