23 de setembro de 2020Informação, independência e credibilidade
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A corrida de um piloto alagoano em busca de patrocínio

Aos 19 anos, Elísio Netto já acumulou 26 pódios na Fórmula Vee, mas sofre com a falta de apoio para participar de competições

Ele tem mostrado que é bom de pista. Seja dirigindo um carro nos circuitos de Fórmula Vee, seja num circuito virtual, o alagoano Elísio Netto, nascido em Arapiraca e residente na cidade de Belém, no agreste alagoano, tem feito bonito e conquistado alguns pódios pelo Brasil afora. Corre, oficialmente, desde os 12 anos, pilotando kart, mas desde os 8 já demonstrava seu amor pelo esporte em corridas de kart amador, em Maceió e Arapiraca.

Aos 19 anos, ele já subiu ao pódio 26 vezes, em competições nacionais, em Interlagos (SP), sendo 6 em primeiro lugar, 14 vezes em segundo e 6 em terceiro. Na semana passada, ele teve mais dois pódios, mas estes, em campeonatos virtuais promovidos pela Liga Inglesa.

Elísio, no lugar mais alto do pódio, em uma das suas corridas / Fotos – arquivo pessoal

Mesmo quando não chega entre os três primeiros quase sempre garante uma boa colocação. Seu talento não passou despercebido aos olhos do ex-piloto de Fórmula 1, Wilson Fittipaldi Junior, irmão do bi-campeão mundial Emerson Fittipaldi (ambos responsáveis pela introdução da FVee no Brasil, na década de 60). “Ele foi citado pelo Wilson, entre os 8 brasileiros com potencial para chegar à Fórmula 1”, revela o funcionário público aposentado Francisco Elisberto, pai e ‘empresário’ de Elísio Netto.

Não é para menos. Em 2018 o piloto alagoano foi vice-campeão no Paulista de Fórmula Vee Jr. Em 2019 terminou em terceiro lugar, nessa mesma categoria (onde correm pilotos com idade entre 15 e 19 anos) e em 7º lugar na disputa com 16 pilotos na categoria mais veterana, a FVee Geral.

Este ano de 2020, Elísio é o único piloto nordestino participando do Campeonato Paulista de Fvee, modalidade considerada uma espécie de porta de entrada para a Fórmula 1. E começou muito bem. Na 1ª etapa, realizada em fevereiro, ganhou a primeira corrida, estava liderando a segunda, mas o equipamento quebrou e ele teve que abandonar a prova. Mesmo assim, ficou em 5º lugar na classificação geral, entre os 11 pilotos participantes.

Preparou-se para entrar com tudo nas etapas seguintes, com foco na liderança, mas aí veio a pandemia do coronavírus impondo o isolamento social e as provas ficaram suspensas por cinco meses. Estão sendo retomadas neste final de semana – dias 8 e 9 – com uma super rodada no circuito de Interlagos, contemplando provas da 2ª e 3ª etapas. E o nosso piloto deveria estar lá para tentar crescer na disputa, que este ano será constituída de 10 etapas. Foi convidado para pilotar um carro da Stock Car, mas não conseguiu viajar.

Na luta para consolidar seu espaço no automobilismo, a corrida mais difícil que ele tem enfrentado é a busca de patrocínio. E nessa, não tem conseguido o mesmo sucesso. Conta, atualmente, com o apoio da VOE Viagens e Turismo e das Farmácias São Tiago, que garantem as passagens do piloto. O resto, inclusive as passagens do acompanhante, são por conta do próprio – o pai e grande incentivador da carreira. A hospedagem, quando dá, é na casa de familiares, para aliviar os custos, que são altos. “Só com aluguel e manutenção do carro, a gente gasta uma média de R$ 5 mil por corrida; tem a inscrição, que é quase R$ 2 mil, e tudo pesa muito no bolso. E basicamente é meu pai que tem bancado isso”, conta o piloto.

O pai, Francisco Elisberto, ficou triste com a ausência do filho nas etapas deste final de semana, importantíssimas para quem tem chance de assumir a liderança do campeonato, mas não deu. “Batalhamos até o último momento, mas não conseguimos viabilizar sua participação”, diz ele, lembrando que nesse campeonato de São Paulo, Elísio compete nas duas categorias (Junior e Geral), e caso estivesse participando das corridas deste sábado e domingo, teria 8 chances de trazer troféus para Alagoas em apenas dois dias de corridas.

Restam, pela frente, 7 etapas do campeonato, num calendário que ainda está sendo ajustado de acordo com a realidade da pandemia, e a esperança de conseguir os meios de assegurar a participação do piloto alagoano, nas próximas corridas do campeonato paulista.

“Apelamos para a sensibilidade dos empresários alagoanos para nos apoiar nessa batalha, para que o Elísio Netto continue representando nosso estado no automobilismo nacional. Solicitamos também um olhar do poder público; da Secretaria de Esporte do Estado e também do município de Arapiraca, terra natal deste piloto talentoso e promissor, para que ele possa continuar levando longe o nome do nosso estado”, apela Elisberto.

Mas, tá difícil. Segundo ele, a situação por aqui parece bem diferente de outros estados, onde pilotos que começaram junto com o Elísio, possivelmente no mesmo nível técnico (e não mais que ele), têm tido o apoio para avançar na carreira, inclusive já disputando provas fora do Brasil.

Cita os exemplos do sergipano Guilherme Figueredo, que hoje corre na Europa, com apoio do banco oficial do Estado (Banese) e de grandes empresas de Sergipe; do paraibano Leo Barbosa que ganha força rumo à Fórmula 1, com apoio de empresas paraibanas e já disputa fora do Brasil; do piloto Rafael Suzuki, que com apoio do governo do estado do Maranhão chegou à Stock Car, assim como o paraibano Vadeno Brito e outros pilotos, em Pernambuco, no Pará, que têm impulsionado a carreira com a força de patrocínios de grandes empresas e o incentivo do Estado.

“Só em Alagoas não há esse incentivo. O Elísio tem potencial, é um piloto promissor, que pode chegar à Fórmula 1. É muito triste ver essa potencialidade desperdiçada por falta de apoio e reconhecimento no próprio estado”, desabafa Francisco Elisberto

O piloto já foca o planejamento para o ano que vem. É tempo de avançar profissionalmente. Mas considera um pouco frustrante essa falta de apoio ao seu trabalho, mesmo sendo o único representante alagoano nessa modalidade. “Acho que Alagoas é o único estado que não tem dado esse tipo de apoio; não ajuda nenhum piloto, e acho que não é por falta de dinheiro. No ano passado, foi noticiado que a Secretaria de Esportes do Estado devolveu R$ 1,8 milhão, aos cofres da União, dinheiro que poderia ter sido usado no incentivo à participação no esporte”, conclui o piloto Elísio Netto.

Dado o recado. E que os olhos do Estado alcancem o talento e a potencialidade desse piloto.

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