20 de abril de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro diz travar guerrilha sem saber quem é o inimigo em cerimônia fechada com condenado

Posse secreta de ministros Defesa, Justiça e Relações Exteriores não contou com imprensa, mas teve espaço para Valdemar Costa Neto, corrupto do mensalão

Em uma cerimônia sem cobertura da imprensa, o presidente Jair Bolsonaro fez a “solenidade” de transmissão de cargo de seis novos ministros. Mas se não teve espaço para cobertura jornalística, houve ali uma cadeira cativa para Valdemar Costa Neto, corrupto condenado em 2012.

No ano passado, o presidente do PL virou réu por peculato, corrupção passiva e fraude à licitação após denúncia do MPF. Costa Neto é acusado de participar de um esquema de superfaturamento nas obras de trecho da Ferrovia Norte-Sul (FNS).

No mesmo período, Valdemar se aproximou do governo Bolsonaro e emplacou indicados na presidência do Banco do Nordeste e na diretoria do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Ele chegou a convidar Bolsonaro a se filiar ao partido.

Curiosamente, Bolsonaro foi eleito em 2018 com discurso contrário ao centrão, grupo de partidos fisiológicos do qual o PL é um dos principais integrantes.

Como se esquecer do general Heleno, por exemplo, cantando “se gritar pega centrão, não fica um meu irmão”? E, aparentemente, alguém gritou polícia, pois as fotos de Costa Neto sumiram.

A foto estava disponível no Flickr do Planalto, mas à noite, no endereço que correspondia à foto, aparecia a mensagem “Parece que a foto ou o vídeo que você está procurando não existe mais”.

No álbum do governo no site de fotografias, há 81 imagens das transmissões de cargo realizadas pela manhã, nenhuma com Costa Neto, condenado em 2012 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no esquema do mensalão.

A foto desaparecida mostrava Costa Neto, uma cadeira vazia, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o general Luiz Eduardo Ramos, que deixou a Secretaria de Governo e assumiu a Casa Civil.

Inimigos

Entre os empossados, estava o general Luiz Eduardo Ramos, “apenas” o novo Chefe da Casa Civil. Mas que discursou afirmando que ‘o grande articulador político desse governo “foi, é e sempre será Jair Bolsonaro”’.

Já Walter Braga Netto, o novo ministro da Defesa, disse que o presidente tem como “prioridade” ações para o combate à covid-19 e vacinação da população. Mas alertando que fará “tudo” dentro dos limites da Constituição:

“O trabalho lá continua árduo, ele não muda nada, a Defesa continua com a sua missão constitucional, de defesa da pátria e dos poderes constitucionais e, conforme a orientação do senhor [presidente Bolsonaro], dentro das quatro linhas do que prevê a Constituição”. Walter Braga Netto.

Os dois ministros e o presidente Bolsonaro são contemporâneos da academia militar e, para Bolsonaro, ao montar a sua equipe ministerial, mais importante que o currículo é a confiança nas pessoas. Segundo ele, o governo está “buscando maneiras de enfrentar o desconhecido”.

“Nós aprendemos a na academia a guerra convencional, muito pouco sobre a guerrilha. Na guerrilha a gente não sabe onde está o inimigo, muitas vezes está ao nosso lado. Mas vamos, cada vez mais, buscando maneiras de enfrentar também a esse inimigo, porque o que interessa para todos nós é proporcionar dias melhores ao povo brasileiro”. Jair Bolsonaro.

Paranoico, o presidente parece estar realmente lutando contra inimigos ocultos. Alguns claramente embaixo de seu nariz, como o corrupto condenado Valdemar Costa Neto. Outros invisíveis, mas com consequências óbvias, como o novo coronavírus.

Independente disso, com certeza Bolsonaro taxa como inimigos a sua oposição, o que não é nada democrático. Assim como posso de tantos ministérios às portas fechadas.