16 de janeiro de 2022Informação, independência e credibilidade
Marcelo Firmino

PMAL: a batalha diária contra o suicídio de militares

Em meio a uma sociedade doente, CAS quer um olhar qualitativo para a corporação

Se há um problema que hoje afeta a sociedade, muito mais que antes, e é transcendental às fronteiras, sem dúvida nenhuma, é o suicídio.

Sério e complexo esse drama do cotidiano já é quarta causa das mortes de jovens no mundo inteiro.

Agora imagine que na China e no Japão é a maior causa, enquanto na terra do Donald Trump, o suicídio tem índice estatístico muito mais alto do que os homicídios.

Há quem diga que este é o mal da atualidade, provocado por uma sociedade doente, individualista e avessa aos aspectos humanitários das comunidades que lhes rodeiam.

Desestruturação das famílias, falta de oportunidades no mercado de trabalho, ausência de socialização dos dramas pessoais, a falta de espiritualidade, enfim, uma série de hipóteses são levantadas por muita gente para justificar o problema.

Pois bem. Pode ser tudo isso ou algo muito diferente do que se diz. O fato é que as afirmações são aleatórias, uma vez que há ainda são escassos os estudos científicos comprovando as hipóteses levantadas. O que existe, até então, são especulações sobre comportamentos de pessoas tidas como depressivas.

Mas, mais do que nunca, é fundamental investigar. Por que tantos suicídios a ferir os jovens e a sociedade de uma maneira geral?

Os dados mais recentes indicam que no Brasil a cada 46 minutos um jovem de 16 a 29 anos pratica o suicídio. E, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos um jovem se mata no mundo (você pode conferir mais sobre esses dados aqui).

O suicídio também passou a ser uma preocupação concreta dentro do sistema de segurança no País. Isso depois que órgãos dos governos estaduais detectaram um alto índice de policiais militares e agentes que morreram após atentarem contra a própria vida.

Alagoas tem o maior índice de suicídios entre os militares

Um levantamento do Grupo de Estudos e Pesquisa em Suicídio e Prevenção – GEPeSP- hoje uma Empresa Especializada de Estudos, revela que o suicídio de agentes da segurança pública em todo o país aumentou 140% entre 2017 e 2018.

O estudo diz que policiais militares são as maiores vítimas. Só em São Paulo foram 50 casos no período. Desses, 80% envolviam praças: 17 soldados, 15 sargentos e 9 cabos.

O mesmo estudo se estendeu nas demais unidades da Federação e o  detalhe revelado é que o Estado de Alagoas, proporcionalmente, tem a maior taxa de suicídios entre os militares, com 5 mortes a cada 7 mil policiais/ano.

O levantamento do Grupo mostra que a base dados é inédita e traz recortes bem específicos, em relação ao agente de segurança que pratica o suicídio.

  • 75% são homens, casados
  • Idade média: 39 anos
  • Onde: durante a folga
  • Ferramenta: arma de fogo

O GEPeSP diz que os dados pesquisados em cada Estado trazem também outras revelações importantes sobre o aspecto da motivação dos militares para o suicídio.

O relatório dos estudos aponta seis fatores motivacionais que mais foram citados em um universo de 53 casos pela ordem:

  • Problemas de saúde mental (10)
  • Conflitos conjugais e de relacionamento amoroso (4)
  • Relacionamento interpessoal na família (4)
  • Consumo abusivo de álcool (2)
  • Humilhações verbais por colegas e superiores (2)
  • Envolvimento criminal (1)

Os pesquisadores recomendam uma análise mais cautelosa dos casos, considerando que mais de 50% dos suicídios não apresentaram motivações.

Além de Alagoas, os Estados São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará são os que enfrentam os maiores dramas nas corporações com os suicídios.

Apesar do tabu que costuma envolver o tema, No quartel da Polícia Militar de Alagoas (PMAL) o problema não é desconhecido. Há inclusive uma preocupação real e constante do comando para os aspectos da prevenção.

Lançar luz em um assunto tão urgente e provocar o debate para o enfrentamento das causas é o caminho que se pretende.

Neste sentido, um grupo de trabalho, talentoso e dedicado, atua com determinação para mudar a estatística e, ao mesmo tempo, buscar alternativas que promovam autoestima dos militares, após a identificação de qualquer problema.

Em 2017, o Centro de Assistência Social (CAS) da PMAL criou um Programa de Valorização da Vida e Prevenção ao Suicídio.

A princípio se produziu uma cartilha educativa conscientizando os membros da corporação sobre o tema e orientando sobre as formas de como proceder diante do problema enfrentado.

Segundo a Capitã Larissa Omena, psicóloga do CAS, o programa atende desde a prevenção universal até a prevenção indicada. E o que seria isso?

De acordo com a psicóloga Larissa, a prevenção universal consiste em ações desenvolvidas para todo o público da corporação, independentemente de estar na área de risco ou não.

Nesse contexto são realizadas campanhas educativas, seminários, palestras, entre outras atividades para orientar a corporação.

Soma-se a isso a formação dos profissionais de saúde, que são capacitados para identificar possíveis casos dentro de ambulatórios e setores afins da área.

Já a prevenção indicada é voltada diretamente para os policiais que estão em risco. Nesse aspecto, há vários grupos que exigem uma maior atenção dos técnicos, terapeutas e profissionais de saúde envolvidos.

Por exemplo, o grupo do Alcoolismo e das drogas. Para esse, um programa transversal de acompanhamento é desenvolvido com o monitoramento dos técnicos do CAS.

Mas, a prevenção passa também pela assistência aos policiais envolvidos com o stress pós-traumático, bem como o acolhimento dos policiais afastados do serviço por conta de questões psiquiátricas. Mais ainda para os policiais que já passaram por uma tentativa.

Nesse conjunto de ações, é recomendado também a suspensão do porte de armas aos policiais identificados com um certo potencial para o suicídio.

Além disso, se desenvolve também pós o suicídio, chamada de pós-venção, que vai da autópsia psicológica (verificação das causas que levaram ao fato consumado) até a assistência à família do policial vitimado.

Destaca a Capitã Larissa que o suicídio é uma pirâmide que com os seguintes estágios: -Ideação, Ameaça, Tentativa e o Fato Consumado (o Suicídio).

“Nós trabalhamos mais com a tentativa, mas já tem sido possível trabalhar até com a Ideação, por que os policiais têm procurado o serviço do CAS, conscientes de que aqui são acolhidos e recebem ajuda”. Disse.

O CAS tem orientado os comandantes para um olhar mais apurado junto à tropa, considerando que há tentativas de suicídios que passam distantes dos métodos convencionais. Exemplos: acidentes de trânsito duvidoso e afogamentos. Nesses casos podem estar embutidas as tentativas de suicídios.

Foi com essa preocupação que os técnicos formaram cerca de 200 multiplicadores dentro da corporação, para a identificação desses casos e condução das ações de prevenção.

O Monitoramento das redes sociais também é importante para prevenção

Tenente-Coronel, Marcos Wanderley e as capitães Amanda e Larissa, psicólogas do CAS.

Como identificar que um policial está fase da ideação?

A psicóloga Amanda Salomão, Capitã lotada no CAS, destaca que os casos são vistos nos ambulatórios, consultórios e afins, mas há também um acompanhamento da própria corporação, uns nas redes sociais dos outros, que acabam identificando problemas.

“Às vezes uma mensagem que um coloca no Instagran, Facebook ou nos grupos de WhatsApp, os próprios amigos de unidade percebem aquilo, fazem prints e nos procuram para alertar o fato. Nós criamos uma rede ao longo desses anos para maximizar a prevenção e a valorização da vida  e o importante é que as pessoas têm se sensibilizado para questão e o trabalho que temos desenvolvido”. Disse a Capitã Amanda.

A equipe trabalha com o viés da sensibilidade total, considerando que existe a pessoa militar e existe a pessoa por trás da farda. Fora do seu papel há o reconhecimento de que muitas vezes há  um ser humano com fragilidades, angústias e dores. Por muitas vezes, a sociedade espera que ele seja um super-homem forte o tempo todo

Esse olhar da Polícia Militar mais amplo para os problemas de saúde enfrentados pelos membros da corporação passou a ganhar nova amplitude, a partir de 2001, segundo declarou o comandante do CAS, tenente-coronel Marcos Wanderley.

A questão dos suicídios, segundo disse, passou a merecer uma atenção mais especial de 2015 para cá, quando os casos se tornaram mais corriqueiros.

Ele lembrou que em 2006 foi feito concurso público para a contratação de psicólogos e assistentes sociais para a corporação, exatamente para que o trabalho de prevenção, focado na melhoria da qualidade de vida dos militares, passasse por uma nova adequação aos tempos modernos, que tanto geram o stress e o suicídio.

“Já este ano fizemos um trabalho forte com a imprensa sobre a abordagem, para que tratássemos essa questão de forma cuidadosa, preventiva, para não se gerar alarde.Foi preparado um evento – Mídia e Suicídio – e uma cartilha com orientações sobre o tema e o resultado foi muito positivo”, destacou o coronel.

O coronel é um entusiasta do trabalho da pequena equipe do CAS. São apenas 18 pessoas – profissionais, técnicos especializados e administrativos – instalados em uma estrutura ainda precária, para atender a mais de 7 mil homens e mulheres da instituição com problemas de toda ordem. Desde o financeiro aos de saúde.

A equipe tem a clara noção de que o trabalho silencioso da prevenção formou vínculos com a tropa e que isso aponta para resultados importantes, no que diz respeito a conscientização de todos no tratamento dos problemas e da impulsão necessária por uma vida melhor.

A prevenção na PM, um trabalho premiado no Brasil

No CAS, uma equipe premiada nacionalmente

Um dos orgulhos do CAS na Polícia Militar de Alagoas é que o trabalho desenvolvido na prevenção, em todas as vias para uma melhor qualidade de vida, já rendeu prêmio nacional a instituição PM. O trabalho teve como foco o estresse ocupacional dentro da corporação.

Em 2014, a equipe apresentou uma publicação no em Porto Alegre (RGS), em um encontro de representantes das unidades federativas, e Alagoas foi contemplada como o melhor trabalho na prevenção da segurança pública. O trabalho foi fruto de uma pesquisa realizada nos anos de 2012 e 2013.

A PM de Alagoas é uma das únicas polícias do País que tem um trabalho publicado com relação a prevenção na área de suicídio. O trabalho remete a um programa institucionalizado e não apenas a ações pontuais sobre o tema.

Em função disso, o CAS estará em Brasília no final deste mês, representando a PM alagoana, para uma nova apresentação deste programa, que passa a ser referência às demais polícias do País.

Hoje o núcleo de assistência social sob o comando de Marcos Wanderley trabalha com  o viés da sensibilidade total, considerando que existe a pessoa militar e existe a pessoa por trás da farda.

O entendimento consiste no fato de que fora do seu papel, o militar sofre os mesmos dramas do cidadão comum. “Ele tem suas fragilidades, angústias e dores, como qualquer outro ser humano. Por muitas vezes, a sociedade espera que ele seja um super-homem forte o tempo todo e nem sempre é assim”. Diz o coronel.

É preciso ter um olhar qualitativo em meio a uma sociedade doente

A equipe de trabalho no CAS não tem dúvidas de que na atualidade se vive uma série histórica em relação aos suicídios, mas sabe também que essa série engloba toda sociedade e não apenas os militares.

Parte-se do princípio que o número de doenças mentais na sociedade cresceu muito e envolvendo os jovens. E os jovens ingressam na corporação a partir dos 18 anos de idade.

O número de suicídios, para as psicólogas do CAS é decorrente das doenças mentais que acometem as pessoas. Ou seja, identifica-se um problema comportamental relacionado a alguma patologia que vem ser a causa do problema.

Daí, diz a Capitã Amanda, é fundamental o olhar qualitativo para todos os integrantes da corporação, pois tudo é preocupante, quando se trata da necessidade de uma vida que se precisa proteger.

“É importante entender que a polícia como um recorte da sociedade, ela termina apresentando as mazelas que a sociedade apresenta, como alto índice de ansiedade, transtornos e depressão que é o que mais tem apresentado a sociedade em geral”, assinala a Capitã.

Para ela, agrega-se a essa situação o fato de o policial viver permanentemente exposto ao alto risco, lidando com a violência o tempo todo, o que o torna mais vulnerável a desenvolver determinados transtornos mentais, como estresse pós-traumático.

Estão nessa condição além dos policiais, bombeiros, socorristas e categorias com maior risco de adoecimento por que lidam diariamente com ocorrências de violência e mortes.

Uma das metas do CAS a partir de agora é trabalhar ferramentas de fortalecimento do perfil de cada jovem que entra na Polícia Militar, como forma de prevenção. É nesse contexto que entrará a equipe com métodos da psicologia positiva, responsável por desenvolver as habilidades e potencialidades do ser humano.