28 de maio de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Senado aprova reconhecimento do Holodomor como genocídio contra ucranianos

Holodomor é o nome pelo qual ficou conhecido o período de fome que resultou na morte de milhões de camponeses, na grande maioria ucranianos, nos anos de 1930

Kyiv Ukraine, Monumento em homenagem as vítimas do Holodomor, na Ucrânia

Depois da aprovação em Plenário, nesta terça-feira (26), de um projeto que reconhece oficialmente como genocídio o extermínio de ucranianos por meio da fome, nos anos de 1930, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, manifestou seu repúdio à invasão da Ucrânia pela Rússia. Para ele, trata-se de uma situação triste para o mundo inteiro e que deve ser condenada sem omissão nem ambiguidade.

“Desde o primeiro momento, condenamos essa invasão, condenamos essa guerra e a repudiamos fortemente, e nos solidarizamos com o povo ucraniano. Nos limites de nossas possibilidades, enquanto Senado Federal e Congresso Nacional, estaremos do lado do povo ucraniano”.

O Projeto de Lei (PL)  423/2022, que foi aprovado em votação simbólica e segue para análise da Câmara, também institui o quarto sábado de novembro como Dia de Memória às Vítimas do Holodomor.

Holodomor é o nome pelo qual ficou conhecido o período de fome que resultou na morte de milhões de camponeses, na grande maioria ucranianos, nos anos de 1930. O termo significa “matar pela fome”. Segundo estimativas, o número de vítimas pode ter chegado a 3,5 milhões.

O autor da proposição, senador Alvaro Dias (Podemos-PR), aponta que o então governo soviético adotou uma política de coletivização de terras e requisição compulsória de grãos e cereais.

À época, a Ucrânia foi obrigada a contribuir desproporcionalmente com sua produção, o que levou à desorganização do ciclo produtivo, causando grave fome e busca pelo êxodo.

“Aqueles que tentavam manter os alimentos eram punidos, mortos ou levados a campos de trabalhos forçados. Campanhas de confisco em grande escala, restrições de ajuda externa e proibição de colher produtos deixados para apodrecer nos campos aumentaram ainda mais a mortalidade”.

Comunidade no Brasil

Ao menos 16 países já reconheceram o Holodomor como um genocídio. Entre as nações que já oficializaram a data, estão Estados Unidos, Portugal, México, Canadá e Austrália.

O relator do projeto, senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR), afirmou que o Brasil deve esse gesto à comunidade ucraniana que vive no país. Cerca de 500 mil a 600 mil pessoas migraram da Ucrânia para o Brasil, que tem hoje a maior comunidade ucraniana na América Latina. Oriovisto fez ajustes de redação no texto.

“O Holodomor foi um dos momentos marcante do século 20, e reconhecer sua existência e seu caráter equivalente a genocídio é imperioso para trazer à tona a história, promover o respeito pelos direitos humanos e ajudar a evitar catástrofes similares no futuro”.

Na discussão do projeto, Alvaro Dias também citou os recentes ataques da Rússia, que definiu como “golpes contra o coração de uma nação”. O senador lembrou que, em 2008, visitou a Ucrânia, onde presenciou ato de homenagem póstuma às vítimas do Holodomor.

Segundo ele, 45 países estavam presentes, mas o governo brasileiro ainda não se fazia representar. Para Alvaro, a ocasião mostrou que era necessária uma posição oficial do país em relação ao tema.

“Nós temos que também seguir este mesmo caminho: o do reconhecimento desse genocídio como um alerta à humanidade, especialmente no momento em que a violência é estampada diariamente com imagens que nos aterrorizam nas telas da TV, retratando mortes, desespero e, evidentemente, o sofrimento de uma população inteira. E, no Brasil, nós temos que dar resposta a essa exigência da civilidade”.

O senador Flávio Arns (Podemos-PR) considera que a oficialização da lembrança do Holodomor servirá como gesto de solidariedade a um povo que hoje vive uma “agressão brutal”.

“Nunca mais isso pode acontecer, como a gente tem que lembrar de outros eventos de natureza parecida, como a ditadura militar, como o nazismo, o fascismo e tantas iniciativas, tantas coisas que aconteceram, abomináveis, e que têm que ser lembradas para nunca mais acontecerem”.