26 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro e Mandetta batem cabeça sobre o uso da cloroquina contra o Covid-19

Segundo estudos da Fiocruz, medicamento que Trump e o presidente brasileiro defendem é ineficaz

Ao mesmo tempo em que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, dava entrevista à imprensa no Palácio do Planalto em que não recomendaria o uso indiscriminado de cloroquina contra o coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro divulgou um vídeo nas redes sociais em que a médica Nise Yamaguchi, entrevistada pela CNN Brasil, defende abordagem diferente.

Enquanto o ministério indica a prescrição do medicamento para casos graves e críticos da doença, Yamaguchi, que tem mantido conversas com o presidente e seria uma possível candidata a substituir Mandetta, defende que se receite a medicação já no segundo dia após o início dos sintomas.

O governo federal até já elabora um decreto para permitir que profissionais da saúde e pacientes infectados com Covid-19 e que estejam em estado grave possam fazer uso do medicamento, mas o ministro da Saúde se recusou a assinar o texto, mesmo após reunião no Palácio do Planalto, no dia em que quase foi demitido.

Fiocruz

Os resultados preliminares de um estudo feito com a cloroquina pela Fiocruz e pela Fundação de Medicina Tropical mostraram que a letalidade no grupo de pacientes com Covid-19 testado, em estado grave, foi de 13%.

De 81 doentes internados que tomaram o medicamento, 11 morreram. Já taxa de mortalidade verificada em pacientes em iguais condições que não usaram a droga é de 18%, segundo estudos internacionais, inclusive da China.

A proximidade dos dois índices não permite afirmar, por enquanto, que a cloroquina possa fazer diferença fundamental no tratamento dos doentes infectados pelo novo coronavírus.

Interesse financeiro

Segundo o The New York Times, o presidente Donald Trump tem um “pequeno interesse financeiro” no fabricante do remédio antimalárico que ele vem promovendo como um “divisor de águas” no tratamento do coronavírus.

Ao longo das últimas duas semanas, Trump e seus aliados da Fox News tem promovido agressivamente a cloroquina como uma cura potencial, apesar de ser algo negado pelo seu especialista em doenças infecciosas Dr. Anthony Fauci. Este outros pedem cautela, notando que não há provas suficientes da eficácia da droga.

O Times relata que a família do presidente tem investimentos em um fundo mútuo cuja maior participação é a Sanofi, fabricante do Plaquenil, a versão de marca da hidroxicloroquina. Associados do presidente, incluindo o secretário de Comércio Wilbur Ross, também administram fundos que detêm investimentos na empresa farmacêutica.

E não é muito diferente com o presidente brasileiro: o medicamento que o Jair Bolsonaro tem propagandeado como esperança de cura para a Covid-19 é produzido por uma empresa farmacêutica que tem como dono um grande entusiasta do bolsonarismo.

A Apsen, que registrou lucro de R$ 696 milhões em 2018, produz o Reuquinol, que Bolsonaro mostrou até para os líderes do G-20 por teleconferência.

Presidente da empresa, Renato Spallicci chegou a fazer uma apaixonada defesa do mandatário do país, Jair Bolsonaro, e críticas ao PT em suas redes sociais abertas (até a publicação desta reportagem), como Instagram e Facebook, .