26 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

O bolsonarismo ainda vive. E autoriza a matar e roubar, de olhos fechados ou não

Nem com o desastroso desempenho na pandemia e os escancarados casos de corrupção Bolsonaro perde apoio político e/ou popular

Foto: Sérgio Lima/PODER 360

O governo Jair Bolsonaro vive uma semana intensa. Questionado sobre o alcance do segundo sábado de protestos contra ele, o presidente surtou. Em resposta à imprensa, ativou seu virulento modo ataque, mandando os presentes calarem a boca e falando em “globolixo”.

Na CPI, que ele e governistas juram não ter problemas, Osmar Terra tentava negar o que claramente dizia em vídeo. E enquanto o ministro da Saúde informal de Bolsonaro ainda insistia em imunidade de rebanho, o senador Marcos Rogério, da famigerada tropa de cheque e que insiste em “narrativas”, apontava erros de oposicionistas cometidos em janeiro do ano passado – e já retratados.

Leia mais: Para nunca esquecer: Bolsonaro e Osmar Terra são responsáveis diretos pelo caos da pandemia no Brasil

Temos também a constatação de que, mesmo informado e ciente, o presidente assinou uma compra superfaturada da vacina Covaxin. Com preços 1000% acima da tabela. Ao valor de R$ 15 dólares cada, elas são mais caras do que as da Pfizer, empresa que insistiu, pediu emergência, ofereceu desconto e nem assim o governo, durante 9 meses, deu atenção.

A tristeza nisso tudo é que ainda tem quem defenda. Quem ainda faça a ginástica mental de ter defendido a não-compra da Pfizer (que “não era autorizada pela Anvisa”) e justificar essa mais cara e superfaturada por empresa que, literalmente, lida com vacinação de gado.

Aprovação

Ontem, uma pesquisa PoderData apontava que o presidente Jair Bolsonaro é considerado “ótimo” ou “bom” por 28% da população brasileira. A fatia dos que avaliam o presidente da República como “regular” oscilou de 17% para 19%, também na e “ruim” ou “péssimo” por 50%.

Sim, já foi alcançada a metade dos que consideram o governo ruim ou péssimo. Mas 28% da população considerando “ótimo” ou “bom” ainda é um número assustadoramente alto. Alto demais se levar em conta que perdemos mais de 500 mil brasileiros  em uma pandemia minimizada até hoje pelo presidente que age com corrupção em compras de vacinas.

A grave acusação de superfaturamento em 1000% da Covaxin tentou ser afundada de duas formas: com a exoneração de Ricardo Salles do Meio Ambiente (foi tarde e já tememos o sucessor) e as ameaças de Onix Lorenzoni ao deputado que disse ter alertado Bolsonaro sobre o caso de corrupção.

No mesmo dia, o gadobot do Twitter comemorava 900 dias sem corrupção no governo. O presidente da Câmara, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL), criticava a CPI da Pandemia e defendia o presidente, afastando qualquer possibilidade de vacinação. O alagoano ainda viu a Câmara Municipal de sua capital, Maceió, conceder um “título de cidadão honorário” para Bolsonaro.

Mentalmente instável, incapaz de fazer analogias que não envolvam “casamento hétero”, envolvido com milícias, mentiroso patológico (a vacinação da mãe ou o “relatório” do TCU são casos óbvios) e claramente à frente de um governo corrupto e de desinformação, como diabos ele ainda consegue tanto apoio? Seja político ou popular?

Bolsonarismo

Noticiar nesta pandemia vem se tornando frustrante e cansativo. Além da tragédia e corrupção (de sempre), há o negacionismo. Reforçar diariamente o óbvio (o vírus é grave, a ciência precisa ser ouvida) se tornou necessário porque muitos estão fixados em argumentos completamente conspiratórios, incompreensíveis e mentirosos.

Apesar do recorde no número de mortes, lotação em hospitais (mesmo com o aumento de 61% na oferta de leitos), falta de medicamentos e colapso até no mercado de caixões, com a primeira queda da expectativa de vida do brasileiro desde 1945 e até mesmo a população diminuindo de tamanho, há quem ainda teime contra a gravidade do vírus.

Por ignorância, conveniência ou pura maldade, há gente demais fechada com o presidente Jair Bolsonaro, o maior nome, rosto e propagador de uma das piores seitas de que se tem história no Brasil: o bolsonarismo.

O presidente Jair Bolsonaro, eleito democraticamente por quase 58 milhões de brasileiros, entrará na história como o maior erro político do Brasil. Antes da pandemia, a Economia já sofria. Assim como as questões ambientais, de saúde, educação e diplomáticas. Há momentos de puro esterco em seus primeiros meses de governo.

Se Bolsonaro é o maior erro político, não pode deixar de ser um dos mais aclamados presidentes da história. Não pela maioria real, de carne e osso. Gente de verdade em 2018 formou maioria contra ele (Haddad + votos em branco/nulo e ausentes). Perfil virtual no Twitter e Facebook também não conta. Mas aqueles 30% de sempre das pesquisas, esses sim, amam Bolsonaro.

Bolsonaro pode falar que vai matar. Bolsonaro pode falar palavrão pra caralho. Bolsonaro pode enriquecer sem ter relação com seu salário. Bolsonaro pode rir de estupro, homofobia, racismo e de suicídio. Bolsonaro pode tudo e seus apoiadores deixam. Engolem sem cuspir. Virou um dever cívico. Bolsonaro é uma entidade verde-amarela que salvará o Brasil da cor vermelha.

Mesmo que precise espalhar muito sangue no meio do caminho.

É difícil falar da atuação do presidente sem mirar sua política. Sua fantasia de governar “sem ideologia”, apesar da imposição de seus extremos, o bolsonarismo. E é em seus extremos que ele conseguiu simpatizantes.

Pessoas frustradas, que por um motivo ou outro não atingiram seu potencial e ficaram satisfeitas em ver alguém semelhante na presidência. É o povo se sentindo representado.

O problema é que essa representação, o fervor pelo bolsonarismo, tirou do armário o que vinha enrustido dentro de muita gente “de bem”, de muito “pai de família”. Ficaram escancarados o ódio, o olho no olho, o individualismo, a falta de empatia e a vitória da convicção cega diante dos fatos e evidências.

E se antes era possível ficar do lado de quem pesava negros em arrobas, esboçou um atentado terrorista (leia aqui sobre o relatório do Exército sobre Bolsonaro, o corno e muambeiro), minimizou o estupro, tentou legalizar a milícia (enquanto ganha muito com isso de forma ilegal), não seria muito forçado ficarem do lado também de quem fala em “frescura e mimimi” numa pandemia.

Carregaram caixões em protestos. Fizeram campanha contra vacinação, em nome de um medicamento que não funciona contra covid-19 e que com uso continuado pode ser letal. Estão agredindo ou matando pessoas que pediram o uso de máscaras. Que pessoa sensata consegue não só aceitar, como participar disso?

Desconhecidos, vizinhos, colegas, amigos, parentes distantes ou próximos. Rico, pobre, analfabeto ou pós graduado. Não importa classe social, idade ou sexo: iludidos pelos ideais do bolsonarismo e que abraçam com orgulho o genocídio.

Todo dia vem sendo uma batalha. Uma luta para não tentar só informar e noticiar, mas também tentar fazer abrir os olhos para o óbvio: tem muita gente sendo infectada, internada, morrendo, e ainda assim há quem ainda defenda o presidente, que siga bolsonarista.

E não é como se estivessem só ajudando a matar outras pessoas. É um risco de vida para o próprio seguidor do presidente. Ser bolsonarista é praticamente participar de um culto suicida.

Líder da seita

Como todo líder de uma seita que se preze, Bolsonaro deveria ser insano o suficiente para acreditar no que fala. Afinal, biblicamente, ele afirma que a verdade o libertará. Sendo este o caso, fica a dica para o presidente: nunca se vacine.

Jair Bolsonaro precisa acreditar em seu discurso. Ele afirma que já fez o melhor ao seu sistema imunológico ao ser infectado com o novo coronavírus. Portanto, não precisaria ser vacinado, como perguntaria um imbecil. Afinal, só “idiota” pediria pra comprar mais vacina, só se for na casa da mãe.

Mas ele diz para seu gado, para seus seguidores, que a vacina não é necessária. Ainda mais a “vachina”, usada em 80% dos casos no Brasil. Então ele precisa ouvir mais seus próprios conselhos. Fazer parte do povo, abraçar de vez o bolsonarismo.

Bolsonaro precisa seguir com o povo. Mas nos hospitais, onde também precisam de sua presença. E que vá sem máscara, pois é “coisa de viado“. Tem que abraçar e dar beijo hétero em médico que receita tratamento precoce. Fazer nebulização de hidroxicloroquina. Abusar de ivermectina. Enfiar ozônio no rabo. Encarar o vírus como homem, e não maricas.

Basta que ele acredite nos seus ideais e ignore todos os sinais. Afinal, é só uma gripezinha. Ele precisa ser um patriota. Dar o valor à sua vida o mesmo que a nossa vem valendo aos seus seguidores: nada.

Sugerir isso não é errado, pois ele fala com tanta convicção, parece estar tão certo disso (convenhamos, é literalmente o que ele vem sugerindo há mais de um ano) que não há outra alternativa que não o líder dos bolsonaristas encarar de perto e seu medo o vírus.

Tão certo quanto saber que se tem alguém para culpar nessa tragédia nacional, é Jair Bolsonaro, presidente da República, que infelizmente tem tirado a vida de muitos brasileiros.