20 de janeiro de 2022Informação, independência e credibilidade
Artigo

Total de vítimas da Covid-19 passou de inconveniência para irrelevância no Brasil

Mesmo com quase 30 mil mortos e a certeza de um número maior, o país tem sua democracia sabotada durante a pandemia

Em menos de 100 dias desde o primeiro caso oficial, o Brasil já conta mais de 514.849 casos confirmados do novo coronavírus. E o alto número de infectados faz país também ter um elevado número de mortos com Covid-19: já são 29.314 óbitos.

O números não são inventados: a fonte é o Ministério da Saúde, mas há muito esta pandemia vem sendo abordada de maneira errada no Brasil. O que já se tornou imperdoável. E o líder do Executivo, Jair Bolsonaro, é o capitão e rosto de tudo o que deu errado este período.

Desmerecendo o impacto que o contágio já vinha provocando na Europa; se recusando a trazer brasileiros de volta da China; fazendo campanha para um medicamento que torna até mais letal o tratamento para algo que ele considerou (ou ainda considera) uma histeria ou uma gripezinha que mata apenas velhos sem histórico de atleta; perdendo dois ministros da Saúde em um momento crítico.

Aliás, importante ressaltar: para o lugar de Nelson Mandetta (que “cometeu o crime” de priorizar a Saúde e não a Economia) ou Nelson Teich (que se recusou a endossar a cloroquina como tratamento), um dos fortes candidatos a assumir o Ministério da Saúde foi o deputado Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania, que fez essa previsão sobre a Covid-19:

O fato e a versão do fato é que, após tanta declaração torta e absurda, a maioria delas com fontes vindas de dentro de cabeça de certos indivíduos, não deu outra: alimentada ou não pelo Gabinete do Ódio, bastou a incepção dessas ideias que minimizaram a pandemia para levar o Brasil ao caos de hoje.

De certa forma abençoada, fomos um dos últimos países do mundo a ser atingido pelo novo coronavírus. Tivemos exemplos do que fazer e não fazer para minimizar os estragos. Era a chance de fazer o País decolar e ser um oásis em um mundo que vai lutar para se reerguer. Só que no meio do caminho, havia o Governo.

A pedra no caminho fez prolongar a necessidade do distanciamento e isolamento social. Mais do que o necessário. Países na Europa que tiveram uma explosão de casos já marcaram retorno para volta às aulas. Na Alemanha, já houve o retorno do campeonato nacional de futebol.

No Brasil, assumimos o posto de foco mundial da pandemia. Sem o menor orgulho disso, assumimos a liderança do total de infectados e mortos contados na última semana. E ao invés do foco ser a Saúde ou, vá lá, até mesmo a sagrada Economia, nos encontramos em um momento de nos preocupar com a sobrevivência da democracia.

Politizaram o coronavírus. Inflamou-se a difícil relação entre os três poderes. Apoiadores milicianos do governo marcham contra o STF, usando máscaras e tochas. O ministro Celso de Mello, literalmente, comparou nossa situação atual com a da Alemanha pouco antes da ascensão do nazismo. O deputado federal filho do presidente prega uma “ruptura”. Corinthianos e palmeirenses se aliam contra um inimigo em comum…

E no meio disso tudo, uma pandemia lota nossos hospitais. Faz com que o povo tenha medo de ser os próximos a perder a capacidade de respirar por conta própria e precisar ser entubado. Já são milhares nesta situação e nosso foco precisou ser desviado para a instabilidade democrática…

Com a devida liberdade (que ainda me/nos resta), vou parafrasear Bolsonaro, em já sua infame performance como condutor da reunião ministerial, vazada como prova de um inquérito da PF aberto pelo STF, para direcionar um desabafo:

Que putaria é essa? Que bosta está acontecendo? Tão querendo foder a gente? Puta que o pariu… O que mais precisa acontecer para algum filho da puta se tocar que essa merda só vai piorar?

Não nos esqueçamos: quase 30 mil pessoas já morreram nessa pandemia. Enquanto o Governo desanda diante dos nossos olhos, pessoas morrem. E se não brecarmos imediatamente com essa ruptura, muitos mais ainda vão morrer.