27 de julho de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Arthur Lira sela “casal hétero” com Bolsonaro ao seguir crítico da CPI e de impeachment

Presidente tem no líder do centrão a maior linha de defesa no Congresso, graças ao ‘toma lá, da cá’ de mãos dadas com o Planalto

Foto: Sérgio Lima/Poder360

Na semana passada, em cerimônia no Planalto, o presidente Jair Bolsonaro escancarava a parceria de broderagem que tem com Arthur Lira (PP-AL), deputado federal que preside o Congresso. “Faz um trabalho excepcional”, disse ele ao alagoano que naquele dia o defendia da CPI e de pedidos de impeachment.

Em discurso que sobrou até para o Judiciário, expulso por Bolsonaro dos três poderes nacionais, foi confirmada a retórica de “eles contra nós”:

“Quem viveu e quem vive hoje com o Parlamento, bem como o nosso colega Rodrigo Pacheco no Senado, a gente vive para o Brasil. Costumo sempre dizer que não são três poderes, são dois poderes. É o Judiciário e nós para o lado de cá, porque nós formamos heteramente um casal”. Jair Bolsonaro, presidente.

Com discurso limitado e prosaico, Bolsonaro é incapaz de associar uma relação política ou de amizade entre dois homens sem deixar de falar “hétero”. Para ele, todo acordo acontece por causa de um “namoro” ou “pedido de casamento”. Como o beijo hétero que deu em Moro no dia dos namorados de 2019.

Mas o ponto não é esse. A questão é que mesmo diante de todas os avanços da CPI da Pandemia, das denúncias feitas pelo deputado Luís Mirada, das acusações de corrupção do líder do governo Ricardo Barros, da não só demora para comprar vacina, como também da negociata em paraísos fiscais e das cobranças de propina pelas mesmas, Arthur Lira segue no flerte e deita e rola na cama com seu presidente.

Eleito para presidência do Congresso em uma campanha com declaradas promessas de indicações políticas e bilhões em emendas e orçamentos paralelos, usadas para a entrega de um ou outro trator em currais eleitorais pelo interior, Lira, líder do centrão, é um escudo de Bolsonaro.

Bolsonaro, que um dia discursou exatamente contra o centrão e contra as políticas de ‘toma lá, da cá‘, hoje usa e abusa. E não importa se o faz para ganhar apoio ou por ser feito de refém: o problema é que para Bolsonaro sair, é preciso passar por cima de Lira.

O que não vai acontecer tão breve, pois Lira que, após receber um superpedido de impeachment contra Bolsonaro, já sinalizou que não vai dar sequência ao processo e que uma ação do tipo exige “materialidade”.

Oposição e movimentos sociais protocolaram o superpedido de impeachment, que reúne cerca de 120 ações em um só processo, apontando mais de 20 tipos de acusações. O que, segundo o alagoano, não seria suficiente.

“O que houve nesse superpedido? Uma compilação de tudo o que já existia nos outros e esses depoimentos. Depoimentos quem tem que apurar é a CPI. Vou esperar a CPI, está fazendo um “belíssimo trabalho, bem imparcial”. Então ao final dela a gente se posiciona aqui, porque na realidade o impeachment, ainda tem 120 na fila, como ação política a gente não faz com discurso, a gente faz com materialidade”. Arthur Lira.

Vejamos o que Arthur Lira dizia uma semana atrás:

“A minha função no impeachment é de neutralidade. Não sou eu que faço o impeachment. Você quer dizer que o presidente Bolsonaro não tem voto na Câmara para segurar um pedido de impeachment? Que ele não tem base de apoio popular para se contrapor a um pedido de impeachment? Então, o que é que estão querendo? Que eu desorganize o país, que eu comece uma conflagração de 122 votos que querem contra 347 que não querem? Vocês querem testar? O que a população quer é testar? Acha que é o caminho? Vamos testar. O que eu estou dizendo é que o impeachment é feito com circunstâncias, com uma política fiscal desorganizada, uma política econômica troncha. O impeachment é político”. Arthur Lira, há uma semana.

Ou seja: não importa se é por serem um casal hétero, sem primeira-dama, ou mesmo pela simbiose entre Bolsonaro e centrão. Para derrubar o presidente que recusou vacinas e incentivou imunidade de rebanho e literalmente matou brasileiros com isso, é preciso antes convencer (ou também derrubar) sua principal linha de defesa: o deputado Arthur Lira.

E caindo ou não, ainda seria preciso lidar com os resquícios do bolsonarismo.

Leia mais: O bolsonarismo ainda vive. E autoriza a matar e roubar, de olhos fechados ou não

Réu

Líder do centrão e forte aliado de Bolsonaro, Lira assumiu a presidência da Câmara como réu no STF e fora da linha de sucessão de Bolsonaro e Mourão.

Precedente determinado pelo STF em 7 de dezembro de 2016 estabeleceu que réus em ações penais no STF podem até comandar uma das Casas do Congresso, mas não substituir o presidente e o vice, caso os dois se ausentem do território nacional.

Foto: Ana Oli

Na época, foram analisadas duas ações questionando os casos de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que presidiram a Câmara e o Senado naquele ano, e também eram réus.

Arthur Lira responde a oito investigações, sendo réu em inquérito no STF, acusado de receber R$ 106 mil de propina do então presidente da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), Francisco Colombo.

Ex-mulher

Já na mira de ações penais no STF (Supremo Tribunal Federal), ele também passa por uma acusação enviada à Vara de Violência Doméstica do Distrito Federal, apresentado pela sua ex- mulher, mãe de seus dois filhos, Jullyene Cristine Santos Lins, em agosto do ano passado, ao STF.

Na petição, anexada a um processo em que Jullyene acusa Lira de injúria e difamação, ela afirma que “o medo a segue 24 horas por dia, pois sabe bem o que Lira é capaz de fazer por dinheiro”. Por outro lado, Lira diz que, ao longo do tempo, as denúncias da ex-mulher “mostraram-se infundadas”.

Jullyene diz que o deputado, com quem foi casada por dez anos, faz insultos não só contra ela, “mas também tentando diuturnamente promover o afastamento familiar dos filhos, principalmente o mais novo, com discursos de ódio e chantagens emocionais”. Cita o “enquadramento do querelado na Lei Maria da Penha e necessidade de proteção urgente” para ela e o seu atual companheiro.

O processo foi aberto em decorrência de outra ação de violência doméstica movida por Jullyene contra Lira, em que o deputado foi absolvido nove anos depois. Em 2006, ela apresentou queixa por lesão corporal contra o então deputado estadual à Polícia Civil.