26 de outubro de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Ministra da Mulher e Família quer bolsa para vítimas de estupro que não abortam

Mesmo com equipe controversa de Ministros, talvez nenhum vá mais de encontro contra os interesses de sua própria pasta, quanto Damares Alves

Dentre as questionáveis escolhas ministeriais de Jair Bolsonaro, difícil identificar uma que se destaque mais por seus aspectos negativos. Seriam 15 ministros, mas o número saltou para 22. O que permitiu muitas contradições.

Há o Ministro das Relações Exteriores que é contra “globalismo” e a acusa a Europa de não ter cultura; o do Meio Ambiente que tem nas costas um processo ambiental e defende fuzilamento do MST e “gente de esquerda”; a ré na Agricultura e conhecida como Madame Veneno; ou o do colombiano na Educação que é favorável a projetos que restringem a mesma, como a Escola sem Partido. Todos sempre com muito foco na “questão ideológica”.

Mas nesta equipe controversa, talvez nenhum vá mais de encontro contra os interesses de sua própria pasta, quanto Damares Alves, então assessora do ex-nome forte Magno Malta, e futura ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Bolsa Estupro

Nesta terça (11), esta senhora disse que deve ser priorizado no Congresso Nacional o projeto de lei do Estatuto do Nascituro, que dá direitos ao feto e pode restringir ainda mais o aborto legal: a  proposta é cria uma espécie “bolsa-estupro” para mulheres que decidirem ter o filho após serem violadas à força.

Para a ministra, “a gravidez é um problema que dura só nove meses”, enquanto que “o aborto caminha a vida inteira com a mulher”. E isso pouco antes de assumir o ministério, após ter se reunido com o presidente eleito. A falta de sentido nesta frase é gritante, ainda mais se for levado em conta que ela é da pasta da ‘Família’.

“Eu sou contra o aborto. Nenhuma mulher quer abortar. Elas chegam ao aborto, porque, possivelmente, não foi lhe dada nenhuma outra opção. A mulher aborta acreditando que está desengravindando, mas não está”. Damares Alves.

A futura ministra acredita que quando autorizado o aborto, de forma indiscriminada e endêmica, as mulheres não mais se tornariam mães, pois nenhuma delas levaria a gestação até o fim. É o extremismo até em argumentos: “nenhuma quer abortar”, como ela mesma diz.

Religião

Para Damara, a discussão do aborto mostra que foi criada uma “falsa guerra entre cristãos e LGBT. Essa guerra não existe e vamos mostrar que essa guerra não existe”. Em suma: do que ela está falando?

É como naquela velha questão: se homossexuais forem norma, não haverá mais crianças, pois todos virariam gays. Um argumento de total insegurança, como a do próprio Bolsonaro, que se recusa a abraçar ou mesmo dizer que ama os filhos homens, pois isso poderia afetá-los. E como seria algo “adquirido”, logo poderia ser “contornado”, ou “curado”. Opinião que ela mesma possui:

“Não há prova científica que exista gene gay. Não há prova científica que o gay nasça gay. Se tivesse, já tinham jogado na nossa cara. A homossexualidade, ela é aprendida a partir do nascimento, lá na infância. A forma como se lida com a criança. Mas ninguém nasce gay”. Damares Alves.

Para a futura ministra, “não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja”. E entenda igreja como ‘evangélica’. As outras estão erradas, como ela bem explicitou ao elogiar o culto do seu então superior, Magno Malta, na comemoração da eleição de Bolsonaro.

“Naquele dia, Deus renovou nossas forças. Porque Deus nos disse que não são os deputados que vão mudar essa nação, não é o governo que vai mudar esta nação, não é a política que vai mudar esta nação, que é a igreja evangélica, quando clama. É a igreja evangélica, quando se levanta que muda a nação”. Damares Alves.

E ela não tem problemas em falar isso abertamente. Para ela “´é o momento de a igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar”. Novamente, ela ficará à frente do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Papel da mulher

Resumindo uma pequena coletânea da futura ministra, fica um alerta para as mulheres que votaram e ainda apoiam Bolsonaro e seu futuro governo: o perigo de retrocesso para elas é enorme.

Muitas das ideias defendidas parecem algo da República de Gilead, a fictícia nação patriarcal militarizada, que tem a bíblia como Constituição e tomou o lugar de boa parte dos Estados Unidos no premiado seriado e livro The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia). Falta de aviso é que não foi.

“Me preocupo com a ausência da mulher na casa. A mulher nasceu para ser mãe. Também, mas ser mãe é o papel mais especial da mulher. A gente precisa entender que a relação dela com o filho é uma relação muito especial. E a mulher tem que estar presente. A minha preocupação é: dá pra gente ter carreira, brilhar, competir, consertar as bobagens feitas pelos homens. Sem nenhuma guerra, mas a gente conserta algumas. Dá pra gente ser mãe, mulher e ainda seguir o padrão cristão que foi instituído para as nossas vidas”. Damares Alves.

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