Chamado de esquerdista pelo MBL, Moro volta atrás em nomeação

Bolsonaro mandou retirar o convite à cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política e Penitenciária

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) ainda age motivado pelas redes sociais. No mesmo dia em que confirmou que seus filhos não mandam no governo, acalmando seus correligionários, ele deu uma ordem executiva ao ministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Pública: retirar o convite à cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política e Penitenciária.

Este é um um órgão de consulta do governo para formulação de projetos na área de segurança. São 26 conselheiros, sendo 13 titulares e 13 suplentes. Szabó suplente não remunerada, mas o fato de ser diretora executiva do Instituto Igarapé que se dedica a estudar e a chamar a atenção para os desafios da violência e da insegurança no Brasil e na América Latina chamou a atenção das vozes da direita.

Szabó foi acusada de se opor à liberação da venda de armas, à posse de mais de uma arma por pessoa, e de um grau maior liberdade para que policiais, sob a alegação de legítima defesa, possam atirar em bandidos ou apenas suspeitos.

Por conta de suas críticas a política de armas do governo, ela foi desconvidada um dia depois a sua nomeação, após pressão de bolsonaristas e grupos da direita como o MBL. Exatamente: o MBL fez campanha e conseguiu convencer nas redes sociais que o juiz Sergio Moro, baluarte da República de Coritiba e “herói nacional” por condenar o ex-presidente Lula, era uma pessoa esquerdista.

“O ministro Sérgio Moro me ligou de volta. Dado o clima, eu sabia que o risco existia. O ministro me pediu desculpas. Disse que ele lamentava, mas estava sendo pressionado, porque o presidente Bolsonaro não sustentava a escolha na base dele”. Ilona Szabó, diretora executiva do Instituto Igarapé, exonerada por Bolsonaro e Moro.

Foram consultores do instituto os atuais ministros da Secretaria Geral da Presidência e da Secretaria de Governo, os generais Floriano Peixoto Vieira Neto e Carlos Alberto dos Santos Cruz. O Igarapé foi parceiro do Exército em missões de paz no exterior, inclusive com treinamento de tropas. Moro conheceu Szabó em janeiro passado no Fórum Mundial de Davos, na Suíça. Gostou de suas ideias.

Não foi a primeira vez as redes sociais fizeram Bolsonaro e seu governo mudarem de ideia. Aconteceu com o vice-presidente do Instituto Ayrton Senna, o educador Mozart Araújo. Ele foi convidado para ser ministro da Educação. Criticado por ser um liberal, perdeu o lugar para Ricardo Vélez Rodrigues, cria do dito filósofo Olavo de Carvalho.

E deu no que deu: Rodrigues já disse que universidade não é para todos, que brasileiro viajando é ‘canibal’ e recentemente mandou que as escolas filmassem seus alunos cantando o Hino Nacional citando o lema de campanha “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Até mesmo referências bibliográficas quase deixaram de ser necessárias nos livros didáticos.

Moro, por exemplo, considerado um juiz linha dura, ao menos com Lula, nunca comentou a investigação do Coaf sobre a corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro. Isso porque o Coaf está englobado em seu ministério. Até mesmo Caixa 2 deixou de ser considerado um crime grave. Deu que Moro virou mesmo político. E um dos piores: aquele que age ouvindo o pior das redes sociais.

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