21 de junho de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Exército de insanos e/ou aproveitadores são um problema maior que Bolsonaro

Mesmo sem condições de seguir no cargo, presidente ainda tem atenção e defesa da mídia que apela para mentira, governistas com interesse próprio e gente que defende golpe militar

Durante o segundo dia de depoimentos da CPI da Pandemia, o Jair Bolsonaro surtou, mais uma vez: à luz (ou escuridão) de mais de 410 mil mortos pela Covid-19. Em um discurso direcionado ao eu curral eleitoral, fez uma série de declarações questionáveis e até mesmo criminosas:

  • Sugeriu que a China criou o novo coronavírus em laboratório e iniciou uma guerra química;
  • Falou estar de sacho cheio em ter que usar máscara por conta da pandemia;
  • Bravejou dizendo que seu novo decreto “pelo direito de ir vir” contra prefeitos e governadores será imposto à força;
  • Ainda, apesar de tudo, segue defendendo tratamento precoce (e chamou de canalha quem o critica);
  • Simplesmente admitiu a existência do Gabinete do Ódio, comandado por Carluxo, mas que chamou de Gabinete da Liberdade.

Cada uma destas afirmações é digna de manchete. É apenas o presidente do País extrapolando os limites da sanidade, com declarações indefensáveis, não é mesmo? Indefensáveis, claro, se você não for insano ou um aproveitador da situação.

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Um dia antes, o ex-ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, confirmou tudo o que se sabia sobre a conduta presidencial na CPI da Pandemia. A única novidade foi a divulgação de uma carta, que escreveu ao presidente, com um alerta e projeção de mortos na pandemia. Bolsonaro ignorou o texto e as mortes aconteceram.

Já durante a surtada presidencial, o ministro seguinte, Nelson Teich, mais uma vez, repetiu o que já era público e notório: não tinha autonomia, o Palácio do Planalto tomava decisões por ele e sua demissão, com menos de um mês no cargo, foi por causa da cloroquina.

Foram dois dias de CPI: nada de muito novo se descobriu. Já seria o suficiente. Pessoas menos articuladas gritariam “acabou, porra”. Mas continua safo no cargo, pois Bolsonaro realmente tem um exército para chamar de seu: os bolsonaristas.

Participantes inscritos, convocados ou voluntários, que seja: de forma absurda, o presidente realmente tem uma parcela de gente que pularia de um penhasco se ele mandasse. Não, muito extremo: gente que pararia de respirar por ele. Muito forte? Talvez gente que ouve corruptos dizendo que corrupção está destruindo o Brasil?

Os motivos são vários, mas a gente sabe perfeitamente quem segue Bolsonaro. E enquanto eles continuarem neste barco, seguiremos à deriva ou afundando.

  • pode ser você mesmo (caso tenha chegado até aqui, pois preferiria estar na bolha) ou algum parente por quem, um dia, já teve mais respeito;
  • idosos ociosos que foram doutrinados durante anos pelo Whatsapp, frustrados que culparam os “petralhas” por tudo de errado em suas vidas;
  • o “cidadão de bem” ou “pai de família” (haja aspas);
  • agentes de segurança com dedos nervoso;
  • “jornalistas” que recebem do governo ou diretamente de seu público alvo e alimentam a crise
  • bilionários que ficam cada vez mais ricos com a crise;
  • líderes religiosos e o rebanho dos mesmos que interpretam completamente errado os ensinamentos Cristãos;
  • juristas ou políticos que graças às emendas, favores ou “toma lás” só têm a ganhar com essa mamataria.

Com a massa de manobra, não há muito a se fazer: se a pessoa nega a existência da pandemia, crê em chip na vacina ou defende golpe militar para ganhar mais liberdade, deixa gritando sozinha pra parede.

O problema é institucional mesmo. Infelizmente, em uma situação em que a “corda romper”, Bolsonaro talvez nem precise das forças armadas, já que as Polícias Militares estaduais, com um número preocupante, contam com representatividade (e sede) bolsonarista.

A segurança armada de Bolsonaro existe porque os ideais do presidente têm financiamento. Gente rica que está ficando mais rica. Empresários que não querem fechar suas unidades ou mesmo prepará-las nesta pandemia, pois a Economia é mais importante. Gananciosos que promoveram diminuição dos direitos trabalhistas e estão lucrando enquanto a população empobrece. E morre.

Para fortalecer o discurso, é necessário ter quem o propague. E se engana quem ainda acha que tudo está restrito aos grupos de Whatsapp: alguns dos maiores grupos de comunicação do Brasil, como a Jovem Pan, ou figuras ditas renomadas, como Alexandre Garcia, caíram de cabeça nas mentiras. E foi iniciada uma guerra contra quem diga o óbvio contra o governo.

Essa situação é reforçada com o uso da religião na política. E de forma pecaminosa. Defendendo biblicamente a verdade, mas apenas vomitando mentiras. Concedendo benefícios fiscais para igrejas bilionárias e pastores milionários. Jogando para os evangélicos. Iniciando uma Guerra Santa em defesa de… mais mortes?

E, claro, os atores dos poderes. Juristas e políticos, de pequenas ou grandes estâncias, do baixo ou alto clero: todos têm a ganhar alguma coisa com Bolsonaro. Seja uma indicação em um Tribunal (melhor ainda se for o Supremo) ou para cargos ministeriais (além dos bilhões em emendas), estão com Bolsonaro não só gente que pensa como o presidente, mas que quer ganhar uma boquinha.

Convenhamos: há nomes e nomes. Jorge Kajuru é um alpinista político e outros sem expressão, apesar de falarem muito ou terem até mesmo alcançado presidência na CCJ, são sim problema, mas a coisa piora quando temos exemplos de figuras com mais história ou peso político.

No início desse própria semana, Arthur Lira, presidente da Câmara, disse que “não há Impeachment sem votos no Plenário, mobilização de rua ou circunstâncias externas”. E mais: afirmando ser “discípulo do Maia”, ele garante que fará como seu antecessor ao colocar todos os (mais de 100) pedidos de afastamento em sua gaveta.

Querendo se afastar do papel de “delegacia” para se aproximar do de “defensor”, Lira fez questão de limpar a barra de Bolsonaro. Ao afirmar que a pandemia é um problema mundial, ele reconheceu que o Brasil cometeu erros, mas foi enfático ao dizer quem errou: “os governos, os prefeitos, todos cometeram. Meu discurso não foi um recado ao presidente da república”.

Lira, tem dó. É público e notório: como candidato de Bolsonaro à presidência da Câmara, que nessa gestão votou diversas propostas governistas enquanto, ao mesmo tempo, foi oferecido bilhões em emendas. Alguns diriam que votos foram vendidos. Outros diriam que deputados foram comprados. Alguns insistiriam que sempre foi assim. Mas todos garantem: é por isso que não há impeachment.

A dotação de R$ 35 bilhões de emendas para deputados e senadores está mantida a custa de cortes em áreas fundamentais como Saúde, (que mesmo em meio à pandemia perdeu R$ 2,2 bilhões), Educação (alvo de achatamento da ordem de R$ 3,9 bilhões)— e Desenvolvimento Regional, subtraído em R$ 9,4 bilhões.

O Brasil está asfixiado e sangrando. E enquanto o atual presidente da Câmara recusa os pedidos de Impeachment, o ex-presidente do Brasil, o senador Fernando Collor de Mello, é mais um que defende o presidente. De olho em um ministério (de preferência Relações Exteriores), ele garante: serve ao presidente do Brasil.

Quando o Senado abriu a CPI da Pandemia,. o ex-presidente da República afirmou não concordar com a investigação. “A CPI é tudo aquilo que a população brasileira não deseja, não quer e não merece”, disse Collor, que confiscou poupanças e sofreu um impeachment.

Em entrevista no mês passado, ele afirmou que o momento da CPI não é ideal e que as investigações podem ser realizadas no futuro, já que agora a hora é de torcer pela união dos Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) contra o inimigo em comum, o vírus.

Falando ao Comando 91, Collor disse que pode ser um “aliado diferenciado” para o atual presidente. Com seus conselhos e ensinamentos, ele espera direcionar o presidente para um foco sem ideologia e atento ao vírus. Claramente não está dando certo.

Retardo mental

Ainda há muitos outros nomes e setores, que por diversos motivos, ainda apoiam Bolsonaro. Que, sem dúvidas, será julgado não só pela CPI, nas urnas ou em tribunais. Definitivamente, será julgado pela história.

Ou, talvez, a notoriedade pegue mais leve com ele, em respeito por ser um presidente especial – como sugeriu a nota da Frente Parlamentar Brasil-China, do Congresso Nacional, que de forma oficial, mas indireta, disse que Bolsonaro tem retardo mental.

Acabou? Até quando isso ainda vai ser considerado apenas uma “cortina de fumaça”?